Novel

Chapter 10: Transmissão de Emergência

Beatriz e Léo tentam concluir o upload dos dados do prontuário 402-B na Rádio Santa Fé. Sob cerco policial e com Léo ferido, Beatriz consegue enviar o pacote final para a polícia estadual segundos antes da invasão e do corte total da rede pelo Dr. Siqueira.

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Transmissão de Emergência

A porta de metal da sala de transmissão da Rádio Santa Fé cedeu com um estrondo metálico, o metal retorcido gritando contra o batente. Beatriz Viana não recuou; ela se ancorou no terminal, os dedos cravados no teclado como se a própria estrutura da realidade dependesse daquela conexão. O monitor, banhado por uma luz vermelha de alerta, exibia a barra de progresso: 98%.

Léo estava caído no canto, a respiração sibilante e errática. O sangue que manchava sua camisa não era apenas uma ferida; era o preço daquela última tentativa de acesso. Ele forçou um sorriso, os lábios pálidos.

— O sistema de purga do hospital... eles isolaram o IP — Léo tossiu, o som úmido e pesado. — Estão derrubando a rede de satélite da cidade para nos sufocar. 99 por cento, Bia. Só mais um pouco.

Beatriz sentiu o suor frio escorrer pela espinha. O relógio digital na parede, marcando 38 horas e 12 minutos para a purga total do prontuário 402-B, parecia um carrasco contando os segundos. O zumbido da ventoinha do servidor era o único som que preenchia o ambiente, até que os alto-falantes da torre ganharam vida com um estalo estático. A voz de Arnaldo Siqueira, antes um símbolo de autoridade paternal, agora soava como uma sentença.

— Beatriz, minha querida. Você está destruindo a única instituição que mantém esta cidade de pé — a voz de Siqueira reverberava, fria e precisa. — O que você tem nas mãos não é justiça, é um câncer. Entregue o cartão de memória e eu garanto que nem você, nem esse rapaz, sofrerão as consequências.

Beatriz ignorou o convite. Ela sabia que a rendição era apenas uma forma mais lenta de desaparecimento. Seus ouvidos captavam o peso das botas dos seguranças no corredor. Cada passo era uma contagem regressiva para o fim.

— Só mais um pouco — ela sibilou, os dentes travados.

O sistema tentou derrubar a conexão. Uma janela de erro exigiu uma autenticação que ela não possuía mais. Beatriz contornou a trava com o código de emergência que Léo roubara, um acesso que custara a ele toda a sua segurança. A barra de progresso era um chicote de pixels: 99%.

O ar na sala tornou-se irrespirável, carregado com o cheiro de ozônio e desespero. Beatriz olhou para o monitor, depois para a porta que cedia centímetro a centímetro. O upload subiu. 99 por cento.

Um estrondo ensurdecedor rompeu o silêncio. A porta de metal foi arrancada de suas dobradiças. Beatriz não hesitou; ela se lançou sobre o terminal, travando o comando final de envio enquanto os seguranças avançavam, armas em punho. O upload estagnou em 99 por cento, a tela piscando em um vermelho intermitente enquanto o sistema de segurança do hospital forçava o fechamento da rede.

Siqueira entrou na sala, com um sorriso gélido de quem acredita ter vencido. Ele caminhou até o terminal, olhando para a tela congelada com desdém, sem saber que o último pacote, o mais crítico, já havia saltado para o servidor da polícia estadual segundos antes da queda total do sinal. Beatriz, exausta, fechou os olhos. O silêncio que se seguiu à interrupção da rede era o peso da verdade finalmente solta no mundo.

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