A Máquina de Limpeza
O zumbido dos servidores no subsolo do Hospital Santa Fé não era apenas elétrico; era o som de uma contagem regressiva que Beatriz sentia vibrar nos dentes. Faltavam exatamente quarenta e duas horas para a purga definitiva dos logs do caso 402-B. Ela estava no coração da fera, vestindo um uniforme de manutenção que cheirava a desinfetante vencido e ao suor frio de quem não tem mais para onde correr. O crachá clonado de 'Carlos, Manutenção Predial' pesava em seu bolso como uma sentença de morte. Beatriz contornou o setor de radiologia, seus olhos fixos na luz verde do terminal de acesso à ala técnica. Cada passo era uma aposta. Se o sistema de vigilância automatizado a identificasse, a purga seria antecipada. Ela não era mais uma auditora; era um erro de sistema a ser corrigido.
Ao alcançar a porta blindada, Beatriz deslizou o crachá pelo leitor. O dispositivo apitou, mas em vez do estalo magnético de destravamento, uma luz âmbar oscilou. O painel solicitou uma segunda validação: leitura biométrica. Ela pressionou o dedo contra o vidro do sensor, torcendo para que a sobreposição de dados de Léo ainda estivesse ativa. O sistema processou, lento demais, enquanto o corredor clínico, gélido e impecavelmente limpo, parecia se fechar sobre ela. Com um suspiro hidráulico, a porta cedeu. Ela entrou, mas o alívio durou apenas um segundo. O terminal central já exibia o status do paciente 402-B: PROTOCOLOS DE ELIMINAÇÃO EM CURSO.
Seus dedos, trêmulos, voaram pelo teclado. O Lázaro-9 não era um fármaco experimental; era uma arma de eliminação, e o hospital estava apagando cada vestígio antes que ela pudesse provar que a linhagem dos Siqueira tinha sangue nas mãos. De repente, a porta de metal deslizou. Léo entrou, a expressão um misto de cinismo e terror absoluto. Ele não parecia o técnico que a ajudara antes; parecia um homem que já tinha assinado a própria sentença.
— Você não deveria ter vindo aqui, Beatriz — a voz dele falhou, ecoando entre as torres de refrigeração. — O sistema não é apenas uma rede de computadores. É um organismo. E ele já sabia que você estava aqui desde o momento em que usou sua senha de auditoria no backup. Eles me ofereceram um acordo, Beatriz. Eles pagam a dívida, mas você... você é o preço.
Antes que Beatriz pudesse responder, o corredor foi inundado por uma luz branca e fria. O Dr. Arnaldo Siqueira apareceu, caminhando pelo corredor estreito com a calma de quem caminha em direção a um altar. Atrás dele, dois seguranças bloquearam a única saída, transformando o corredor em um caixão de vidro e aço.
— Beatriz — a voz de Siqueira era aveludada, impregnada de uma autoridade que ele exercia como um direito divino. — Você sempre teve o hábito de investigar além do que o seu cargo permitia. Era uma virtude, na época em que o Santa Fé era apenas um hospital. Hoje, é uma patologia.
Beatriz recuou, suas costas colidindo com o gabinete do servidor. O drive com o backup do prontuário 402-B queimava em seu bolso, o peso daquela prova parecendo uma sentença de morte.
— O Lázaro-9 não é um tratamento, Siqueira. É um experimento de eliminação — ela disparou, a voz trêmula, mas firme. — Eu vi o que fizeram com o paciente 402-B. Eu vi o que fizeram com Helena.
Siqueira não respondeu com raiva. Ele apenas olhou para o painel de controle e digitou uma sequência rápida. A porta da sala de servidores travou automaticamente com um estrondo metálico, selando-a lá dentro. O sistema de ventilação parou, e o zumbido dos servidores mudou para um tom agudo e ensurdecedor.
— O sistema de purga precisa de um sacrifício para concluir a limpeza, Beatriz — Siqueira disse através do vidro reforçado. — E você acabou de se voluntariar.
Sozinha, Beatriz viu o relógio na parede digital piscar: 41 horas e 59 minutos. Ela estava presa, o oxigênio começava a rarear, e lá fora, o hospital inteiro agora a caçava como um vírus a ser expurgado.