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Chapter 4: Sombra na Catedral

Beatriz tenta obter o depoimento da enfermeira Helena na praça da catedral, mas a testemunha é sequestrada por capangas de Siqueira. Isolada e difamada, Beatriz decide invadir o subsolo do hospital para extrair provas definitivas do Lázaro-9, apenas para ser encurralada por Siqueira em uma sala de servidores selada.

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Sombra na Catedral

O ar na Praça da Catedral estava impregnado de cera derretida e o frio úmido das pedras do século XVIII. Eram 03h12 da manhã. Beatriz Viana ajustou o capuz, sentindo o peso do drive USB no bolso do casaco como uma sentença de morte. No visor do seu celular, agora um dispositivo órfão, sem rede institucional, o cronômetro marcava 44 horas para a purga definitiva dos dados do Hospital Santa Fé. O Lázaro-9 não era apenas um fármaco; era o segredo que sustentava a linhagem dos Siqueira, e ela era o erro de sistema que precisava ser deletado.

Helena estava sentada em um dos bancos de pedra, as mãos entrelaçadas com tanta força que os nós dos dedos pareciam marfim sob a luz mortiça dos lampiões. Quando Beatriz se aproximou, a enfermeira não levantou o olhar. Ela tremia, um tremor fino, quase imperceptível, que denunciava o pavor absoluto.

— Você não deveria estar aqui, Beatriz — sibilou Helena, a voz rouca. — Eles sabem. O Dr. Siqueira já mandou o aviso. Se você abrir a boca sobre o Lázaro-9, o seu prontuário vai sumir da vida real, não apenas do servidor.

Beatriz sentiu o sangue gelar. — Helena, o paciente 402-B não morreu de falência múltipla. Você viu a dosagem. Você assinou a checagem. Se formos a público agora, antes da purga, podemos salvar o que resta da sua dignidade.

— Dignidade? — Helena levantou-se, os olhos injetados de terror varrendo a praça deserta. — O hospital paga a escola dos meus filhos, o plano de saúde, o silêncio. Você acha que a fé nesta cidade protege alguém contra a influência dos Siqueira? Você é uma pária agora, Beatriz. Eles já espalharam que foi você quem manipulou os registros para cobrir um erro médico.

Antes que Beatriz pudesse responder, o som de pneus de borracha roçando o paralelepípedo cortou o silêncio. Um sedã preto parou bruscamente na esquina. Dois homens em ternos cinzas, impessoais como a arquitetura da basílica, desceram do veículo. Não houve gritos. Helena, antecipando o destino, encolheu os ombros, a resignação substituindo o pânico enquanto os homens a conduziam para o carro. Beatriz tentou dar um passo à frente, mas uma mão calejada e firme fechou-se em seu braço, puxando-a para o nicho sombrio de uma estátua de pedra.

— O erro de digitação que você procura não existe, Viana — sussurrou uma voz áspera, cheirando a tabaco barato. Era um dos capangas de Siqueira. — A diretoria já decidiu o seu desfecho. Saia da cidade, ou o próximo prontuário a ser deletado será o seu.

O carro arrancou, levando a única testemunha ocular do Lázaro-9. Beatriz ficou sozinha na praça, a humilhação pública queimando em suas têmporas. Ela não podia voltar para casa; sua vida civil havia sido revogada. Sem recursos e com o cerco se fechando, o desespero transformou-se em uma decisão gélida: se o hospital queria purgar a verdade, ela a encontraria no coração da máquina.

Beatriz infiltrou-se no subsolo do Santa Fé usando um crachá de manutenção clonado. O zumbido dos servidores era um mantra metálico, o som da contagem regressiva que agora apontava 42 horas. Ela conectou o drive ao terminal central. O cursor piscou, ávido. Árvores de diretórios se abriram, revelando a rede de financiamento oculta dos Siqueira. Mas, ao tentar extrair o log de acesso, o monitor brilhou em âmbar: Acesso negado. Protocolo de contingência ativado.

Um estalo seco ecoou pela sala. As travas magnéticas da porta blindada selaram-se com uma precisão cirúrgica. O ar tornou-se rarefeito, saturado pelo cheiro de ozônio. Beatriz puxou a maçaneta em vão. O silêncio foi quebrado pela voz do Dr. Arnaldo Siqueira, projetada pelos alto-falantes internos, calma e autoritária:

— Você sempre foi meticulosa, Beatriz. É o que eu mais admiro em você. Mas você esqueceu que, neste hospital, a tecnologia também reza para a minha família.

A porta de vidro blindado começou a deslizar para o lado, revelando a silhueta de Siqueira parada no corredor, observando-a como um espécime em uma placa de Petri.

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