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Chapter 3: Fragmentos de Culpa

Beatriz decodifica o prontuário 402-B, descobrindo que o paciente foi cobaia de um fármaco experimental, o 'Lázaro-9'. Ao tentar confirmar a informação com a enfermeira Helena, ela presencia a demissão e o isolamento da testemunha via telefone. O sistema de segurança do hospital localiza sua conexão, forçando-a a fugir de seu apartamento enquanto o prazo para a purga total cai para 44 horas.

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Fragmentos de Culpa

A chuva em Santa Fé não limpava o ar; apenas misturava o cheiro de incenso das igrejas com o odor metálico e estéril que Beatriz trazia na pele. Eram 02h15. Segundo os cálculos de Léo, restavam quarenta e seis horas antes que o protocolo de purga do Hospital Santa Fé incinerasse o prontuário 402-B. Beatriz apertou a bolsa contra o corpo. O drive ali dentro não era apenas um arquivo; era um peso que a tornava um alvo.

Ao dobrar a esquina de seu prédio, o instinto de auditora a salvou. A guarita do porteiro estava vazia. Encostado na pilastra, um homem de uniforme cinza-chumbo — o padrão da segurança do hospital — fumava com a calma de quem espera uma entrega inevitável. O emblema no peito era um aviso: o sistema não estava apenas deletando dados, estava mapeando seus passos. Beatriz recuou para a sombra de um carro, o coração martelando contra as costelas. Se entrasse pela frente, seria detida. Ela contornou o quarteirão, escalou a mureta dos fundos e entrou pela área de serviço, trancando a porta com a trava de segurança. O santuário estava violado.

Ela conectou o drive a um laptop offline. A tela brilhou, lançando um azul gélido em seu rosto. O arquivo 402-B era uma colcha de retalhos, mas, ao decodificar os metadados, a verdade se desenhou: o paciente, um peregrino sem nome, fora cobaia do 'Lázaro-9', um fármaco experimental financiado por investidores que exigiam resultados antes do fechamento do ciclo fiscal. A data da morte: trinta e seis horas atrás. O relógio no canto da tela, sincronizado com a rede que ela ainda conseguia simular, marcou quarenta e cinco horas para a purga total. A cada segundo, a evidência era varrida.

Beatriz discou para a enfermeira Helena, a única citada no prontuário. O telefone chamou três vezes.

— Helena, sou eu. Preciso saber: foi o Dr. Siqueira quem ordenou a dosagem? — a voz de Beatriz saiu firme, apesar do tremor nas mãos.

Do outro lado, ouviu-se o zumbido metálico do hospital e passos apressados. Uma voz masculina, fria e autoritária, cortou o ar:

— Enfermeira Helena, entregue o dispositivo. Agora.

Beatriz congelou. Ouviu o som de um aparelho sendo arrancado, o baque de uma porta metálica e, em seguida, o anúncio de demissão imediata por 'violação de protocolo'. O hospital não estava apenas limpando dados; estava erradicando testemunhas. O zumbido do seu roteador mudou de tom; a luz de status, antes verde, pulsava em um vermelho rítmico. Ao usar sua senha para extrair o backup, ela havia colocado um farol sobre sua própria vida.

Um estalo seco ecoou na porta da frente. A chave mestra girava na fechadura. Beatriz não olhou pelo olho mágico; o silêncio no corredor era a autoridade de quem não precisa de permissão. Ela agarrou o drive, correu para a janela de serviço e saltou para a escada de incêndio enquanto a porta principal cedia sob um golpe violento. O relógio na tela abandonada marcava quarenta e quatro horas. Ela não era mais uma auditora; era uma presa correndo contra o tempo de sua própria extinção.

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