O Preço do Acesso
O ar no subsolo do Hospital Santa Fé não era apenas frio; era estéril, carregado com o cheiro metálico de ozônio e poeira de servidores que nunca descansavam. Beatriz Viana desceu os degraus de concreto, sentindo o peso do crachá contra o peito. Ela checou o relógio digital no pulso: 46 horas e 12 minutos para a purga definitiva do prontuário 402-B. Cada segundo que passava era um grão de areia escorrendo de uma ampulheta que ela mesma começara a virar.
Léo estava encolhido diante de um terminal, a luz azulada da tela esculpindo olheiras profundas em seu rosto. O zumbido dos ventiladores era um ruído branco que mascarava a tensão no ar. Quando Beatriz fechou a porta de segurança, o técnico deu um salto, as mãos travando sobre o teclado.
— Você não deveria estar aqui — sibilou ele, sem desviar os olhos do cursor. — O sistema registrou o seu acesso ao log de auditoria. O Dr. Siqueira é notificado em tempo real sobre qualquer consulta sem ordem de serviço. Você está marcada, Beatriz.
Beatriz ignorou o aviso, aproximando-se o suficiente para ver a barra de progresso do prontuário 402-B, que piscava em um vermelho intermitente.
— Eu não vim pedir permissão, Léo. Eu vim buscar o backup. Sei que você vende acessos para cobrir suas dívidas de jogo. Se o hospital descobrir o que você faz, você não será apenas demitido; será destruído pela hierarquia desta cidade. Agora, me dê o arquivo.
Léo a encarou, o pânico estampado em cada músculo tenso.
— Eu não consigo extrair o backup sem uma senha de nível administrativo. Se eu tentar, o sistema identifica minha assinatura digital e me isola. A purga não é uma falha, Beatriz. É um comando executado manualmente pela diretoria.
Beatriz sentiu o estômago revirar. A escolha estava diante dela: manter sua senha de auditoria, seu último escudo institucional, ou sacrificá-la para expor o que Siqueira escondia. Ela não hesitou. Digitou sua sequência alfanumérica no terminal de Léo, sentindo o peso da perda de sua proteção institucional enquanto o sistema autorizava o acesso.
— O Siqueira veio aqui pessoalmente — confessou Léo, a voz embargada enquanto o arquivo começava a ser baixado para o drive de Beatriz. — Ele logou com a senha da diretoria e marcou o prontuário 402-B para purga total. Ele sabia que alguém chegaria perto. Ele está esperando que alguém tente acessar. Você não está investigando um erro, Beatriz. Você está sendo caçada por quem desenhou a armadilha.
O download terminou com um clique seco. Beatriz guardou o drive, sentindo o metal frio contra suas costelas. O custo daquela pequena peça de silício fora sua segurança total. Ao sair do subsolo, o ar condicionado industrial parecia denso demais, quase sólido. Seu crachá, ao ser testado no leitor de saída, piscou um vermelho opressor. Acesso negado. O sistema sabia que ela não era mais quem dizia ser.
Ao chegar em casa, a cidade de peregrinação, silenciosa e devota, parecia um vácuo esperando para engoli-la. Beatriz estacionou, mas o motor do carro nem esfriou. Parado em frente à sua porta, um sedã preto com vidros fumê bloqueava a entrada. A figura de um segurança, reconhecível pelo porte e pela postura, permanecia imóvel sob a luz do poste. O sistema não apenas apagava dados; ele rastreava quem os acessava. O predador não estava apenas no hospital; estava na porta de sua casa.