Dívida em Chamas
O cheiro de ozônio e metal queimado era a assinatura do Setor C, um perfume acre que grudava na garganta de Kaelen. Diante dele, o Ferrugem parecia uma carcaça agonizante, com a integridade estrutural oscilando em um vermelho crítico de 12%. Cada centímetro de blindagem exposta era um convite ao desastre, mas o cronômetro no terminal do hangar não dava tréguas: faltavam dez minutos para o torneio de eliminação, a única rota de fuga para a dívida que sufocava sua sobrevivência.
Sora não olhou para cima. Suas mãos, ágeis e manchadas de graxa sintética, dançavam sobre os circuitos expostos do módulo experimental. O componente, uma peça de arquitetura alienígena que desafiava a tecnologia padrão do Campo de Provas, pulsava com uma luz azulada e doentia.
— Se eu estabilizar a saída, você ganha 30% mais potência — a voz de Sora era cortante, técnica, desprovida de esperança. — Mas o módulo não está apenas injetando energia. Ele está consumindo a estrutura metálica do chassi como combustível. Se você mantiver a sobrecarga por mais de dez segundos, o Ferrugem vai se desintegrar sob o seu comando. É uma aposta suicida, Kaelen.
Kaelen sentiu o peso do olhar dela. A escolha era clara: a obsolescência lenta sob a pressão dos credores de Vane ou uma explosão de glória que poderia reduzir seu chassi a cinzas. O Expurgo estava a 30 dias de distância, e ele não tinha luxo para a cautela.
— Apenas faça funcionar — respondeu ele, a voz firme. — Se o chassi virar sucata, pelo menos eu terei morrido lutando, e não esperando o confisco.
Na Arena de Provas Central, o ar tinha o gosto metálico de desespero. Kaelen sentiu o Ferrugem tremer sob seus pés enquanto o cronômetro do torneio de eliminação, projetado em um holograma imenso, contava regressivamente. Cada segundo ali dentro era uma cobrança de juros sobre sua existência.
O primeiro oponente, um bípede de classe média, avançou com um canhão de pulso carregado. Kaelen não esperou. Ele sentiu o feedback do módulo proibido — uma vibração gélida que não deveria existir. Com um movimento preciso, ele desviou do disparo por centímetros, o calor do plasma chamuscando sua blindagem, e descarregou uma rajada concentrada no joelho do inimigo. O oponente caiu com um estrondo que fez a arquibancada vibrar. Vitória. Mas, ao olhar para o placar, o choque foi imediato: em vez de diminuir, a dívida saltou para um valor ainda mais alto. Taxas de 'manutenção de arena' e 'custos de risco' foram aplicadas retroativamente.
— Eles estão manipulando a contabilidade em tempo real — a voz de Sora ecoou pelo comunicador, carregada de fúria contida. — Eles não querem que você pague. Eles querem que você se afunde.
Kaelen forçou o Ferrugem através da segunda e terceira rodadas, a estrutura metálica gemendo sob o estresse da sobrecarga. Ele venceu, mas a cada triunfo, o placar subia. Ao sair da arena, o vestiário parecia uma câmara de execução. Um enviado de Vane, com o uniforme impecável da administração, esperava à porta com um sorriso gélido.
— O torneio terminou, Kaelen — disse o homem, estendendo um tablet com números vermelhos. — Mas a dívida foi recalculada. O uso de tecnologia não autorizada incorre em multas pesadas. Sua dívida agora é de duzentos mil créditos.
O enviado se aproximou, sussurrando perto do ouvido de Kaelen enquanto o Ferrugem soltava fumaça atrás deles.
— O torneio terminou, mas os credores dobraram a aposta. A dívida agora exige uma vitória impossível. O enviado de Vane sorriu. Ele tinha ordens para que o Ferrugem nunca saísse da arena.