O Degrau Acima é um Abismo
O Hangar de Saída cheirava a ozônio e metal calcinado — o perfume do fracasso. No painel do Ferrugem, o indicador de integridade estrutural tremeluzia em um vermelho agressivo: 12%. Cada movimento do chassi era acompanhado por um lamento metálico, um rangido de peças exaustas implorando por uma aposentadoria que Kaelen não podia pagar.
— Piloto 402, imobilize o chassi — a voz do Comandante Vane cortou o ar, amplificada pelos alto-falantes do hangar. Fria, mecânica, absoluta. — O número de série do seu frame foi sinalizado. Auditoria de ativos iniciada. Desça e entregue o núcleo agora.
Kaelen sentiu o suor frio escorrer pela nuca. O cronômetro no canto da tela marcava 2 minutos e 45 segundos para o confisco automático. Se o Ferrugem parasse, ele não apenas perderia o mech; seria varrido para as docas de sucata, onde a cidadania de segunda classe se tornava uma vala comum. Vane observava do camarote, esperando o sistema travar o chassi com a precisão de um carrasco.
— Não hoje — murmurou Kaelen. O módulo experimental, alojado como um parasita no peito do Ferrugem, vibrou. Kaelen forçou uma descarga residual, sobrecarregando as travas magnéticas do hangar. Faíscas azuis explodiram das colunas de contenção. Ele acelerou, ignorando os avisos de superaquecimento, e atravessou o bloqueio antes que os coletores de dívida reagissem. O cronômetro zerou no momento em que ele cruzou o limite do setor, a salvo por um fio de cabelo.
Ele não parou até chegar à oficina de Sora, no Setor Industrial. A mecânica ergueu os olhos, mas a expressão de desdém desapareceu ao ver o estado da máquina. Kaelen jogou o chip de créditos da vitória sobre a bancada.
— Estabilize-o. Vane tem o número de série. Se eu não sair daqui com ele operável, serei um sucateado antes do amanhecer.
Sora ignorou os créditos. Ela se aproximou do painel aberto, mas ao tocar na fiação que pulsava em uma frequência âmbar, proibida, ela recuou, a pele perdendo a cor.
— Kaelen, o que você fez? Isso não é tecnologia da nossa era. Se eu tocar nisso, não é apenas minha licença que estará em jogo; é nossa vida.
O silêncio foi brutalmente interrompido por um estrondo estático. As paredes tremeram quando um holograma de Vane se projetou no centro do setor, dominando a visão de todos.
— Atenção, pilotos — a voz de Vane reverberou. — O Campo de Provas atingiu o limite de capacidade. Para garantir a excelência da elite, decretamos o fechamento deste setor em 30 dias. O 'Expurgo' começará imediatamente: todos os pilotos de rank baixo que não alcançarem o patamar de elite serão purgados do sistema para liberar recursos.
Kaelen sentiu o sangue gelar. O ranking não era mais status; era imunidade. Ele precisava subir três patamares em tempo recorde. A dívida era um problema secundário diante da ameaça de morte institucional.
— Você ouviu, Sora? — Kaelen disse, a voz firme apesar do medo. — Não tenho mais trinta anos. Tenho trinta dias. Se esse módulo pode me dar uma chance, eu a tomarei.
Sora removeu o painel peitoral. Quando a luz da bancada incidiu sobre o módulo central, ela parou. A peça não brilhava com o neon padrão das baterias de alto rendimento; ela pulsava com uma frequência âmbar, quase orgânica. Ela empalideceu, o silêncio pesado caindo sobre a oficina. A tecnologia desafiava as leis da física que o Campo tentava impor. Kaelen segurava uma relíquia que faria facções inteiras matarem por ele, e o cronômetro do Expurgo, lá fora, continuava a contar.