O Confronto na Chuva
A água fétida, uma mistura de esgoto e produtos químicos de limpeza, subia pelos tornozelos de Lucas enquanto ele forçava a porta de serviço do Nível Zero. O aviso luminoso acima da entrada piscava em um vermelho doentio: Falha Crítica - Sistema de Drenagem. O relógio digital na parede, um lembrete cruel da contagem regressiva, marcava 05:59:42 para a purga definitiva. Cada segundo ali dentro era um ativo financeiro sendo liquidado; Lucas, o erro de sistema que Arantes pretendia apagar, não tinha margem para hesitação.
Ao descer a escadaria de concreto, o rugido da tempestade lá fora era abafado pelo som sibilante da água invadindo os subsolos. No terceiro lance, a lanterna de seu celular revelou o corpo de um segurança caído. Não havia marcas de violência, apenas a palidez de quem tentara, em vão, conter o inevitável. Ao lado dele, um rádio comunicador chiava com ordens de fechamento total. Lucas ignorou o rádio. Seus dedos apertavam o dispositivo com os dados brutos do Protocolo de Otimização de Fluxo; a prova da logística de órgãos que marcava pacientes para "ajuste".
Ao alcançar o Nível Zero, o cenário era de colapso. A sala de servidores tremeluzia sob luzes de emergência. Helena estava encurralada em uma cela técnica, a água na altura da cintura. Ela não gritava; observava a entrada com uma calma aterrorizante. Quando Lucas deslizou o cartão de acesso roubado, a trava magnética cedeu com um estalo seco.
— Você não deveria ter vindo — ela sussurrou, a voz trêmula pelo frio. — Arantes sabe dos dados. Ele não quer apenas a purga, Lucas. Ele quer os registros de quem autorizou cada ajuste. Se você sair daqui, ele vai garantir que você nunca chegue a um tribunal.
Lucas não respondeu. Ele conectou o dispositivo ao terminal central. A barra de progresso surgiu, mas o sistema, sentindo a intrusão, começou a oscilar violentamente. Antes que o upload atingisse 20%, botas pesadas chapinharam na água. Marcos, o segurança, surgiu com a arma em punho.
— Largue isso, Menezes. A ordem é de abate — a voz de Marcos era profissional, desprovida de ódio, mas carregada de uma resignação mortal.
Lucas não se virou, mantendo os olhos na tela.
— Você viu o prontuário 402, Marcos. Você sabe que não foi uma parada cardíaca. Foi um ajuste de balanço. Se me matar, a prova da sua participação na contenção de evidências morre comigo. Arantes não vai te proteger quando a auditoria chegar. Você é apenas mais um erro para ele apagar.
O silêncio foi preenchido apenas pelo gotejar da tubulação. Marcos baixou a arma, o rosto contraído pela dúvida.
— O sistema de Arantes está monitorando esta sala — disse Marcos, com a voz embargada. — Se eu não te abater, ele vai cortar a energia geral. Isso vai destruir o que você está tentando baixar.
— Então corte você mesmo — retrucou Lucas. — Force um curto-circuito no setor. Isso vai isolar a rede e me dar a cobertura que preciso para terminar a cópia local.
Marcos hesitou, olhou para a água que subia, e então disparou contra o painel de distribuição elétrica. Faíscas dançaram sobre a superfície da água antes que a escuridão absoluta engolisse o Nível Zero. No breu, o único brilho era a tela do dispositivo de Lucas: 60%.
De repente, um estrondo surdo ecoou. A pressão da água arrombou a parede de contenção lateral. O Nível Zero começou a virar uma armadilha líquida. Lucas soltou Helena, puxando-a para fora da cela. Eles tentaram subir a escadaria, mas a água já bloqueava o caminho. Sem saída, Lucas forçou a grade de ventilação. Enquanto rastejavam pelo duto claustrofóbico, o upload falhou, mas o dispositivo em seu bolso vibrou: os dados haviam sido copiados localmente. Ao emergirem em um corredor superior, a água atingiu o teto, cortando a última rota de fuga e forçando-os a mergulhar no desconhecido enquanto o hospital, em seu lockdown, parecia se fechar como uma tumba.