O Relógio Zera
O ar no duto de ventilação tinha o gosto metálico de ferrugem e o odor nauseante de esgoto. Lucas Menezes forçou o corpo para frente, as articulações protestando contra o espaço confinado, enquanto o som da água subindo no Nível Zero ecoava como um trovão abafado abaixo deles. A cada movimento, a grade enferrujada sob suas mãos rangia — um sinal para qualquer segurança que patrulhasse o setor.
— Lucas… eu não consigo — a voz de Helena saiu num fio, trêmula e carregada de dor. Ela estava logo atrás, o sangue de um corte profundo na coxa manchando a calça cirúrgica e deixando um rastro escuro sobre o metal galvanizado.
Lucas parou, o suor frio misturando-se à fuligem em seu rosto. O relógio digital em seu pulso, sincronizado com o servidor de contingência, brilhava em um vermelho agressivo: 05:48:12 restantes. O sistema não estava apenas apagando arquivos; estava enterrando provas sob toneladas de água e silêncio corporativo.
— Helena, escuta — Lucas virou-se, o movimento forçando os dois a um contato desconfortável. — Se pararmos, eles nos encontram. O cartão de acesso que você me deu não é apenas uma chave; é uma sentença. Arantes sabe que temos os dados brutos do Protocolo de Otimização de Fluxo. Se não chegarmos à sala de servidores secundária, todo o sacrifício de Marcos terá sido em vão.
Eles alcançaram a grade técnica. Lucas a removeu com um golpe seco, revelando a sala de servidores secundária, uma ilha de silêncio clínico em meio ao caos da inundação. Ao aterrissarem no piso elevado, o impacto fez a luz de emergência oscilar. Helena caiu de joelhos, ofegante, mas seus olhos estavam fixos no terminal principal.
— A rede está sendo monitorada — ela sussurrou, a voz firme apesar da palidez. — O firewall de contenção está ativo. Você não vai conseguir extrair nada com uma conexão externa.
Lucas conectou o cabo de interface ao terminal. O sistema reagiu instantaneamente: uma série de alertas vermelhos varreu as telas. A voz de Arantes ecoou pelos alto-falantes da sala, gélida e desprovida de qualquer humanidade:
— Dr. Menezes, sua insistência em se tornar um erro estatístico é quase admirável. O conselho corporativo já autorizou a purga. Você não está combatendo um hospital, está combatendo a própria realidade financeira deste lugar.
Helena, ignorando a dor, arrastou-se até o console. — Lucas, use meu código de override. Ele vai criar uma ponte, mas vai rastrear meu ID até a raiz. Não haverá volta para mim.
— Helena, isso vai destruir sua carreira — Lucas hesitou, a mão pairando sobre o teclado.
— Minha carreira acabou no momento em que vi aquele prontuário, Lucas. Apenas faça.
O upload começou. A barra de progresso avançou: 30%… 60%… 90%.
De repente, o sistema inteiro estremeceu. As luzes da sala apagaram-se, substituídas pelo vermelho estroboscópico das sirenes de lockdown. A conexão caiu. O silêncio que se seguiu foi pior que o ruído: o hospital estava isolando a sala.
— Eles cortaram a rede física — Lucas praguejou, desconectando o drive. — Precisamos de uma saída externa. O lobby. É o único ponto com link direto para a rede de fibra ótica da cidade.
Eles emergiram no lobby principal, um espaço vasto e impessoal que parecia uma catedral de vidro e medo. A tempestade lá fora batia contra as janelas como se quisesse estilhaçá-las. Arantes estava parado no centro, com a postura impecável de quem supervisiona uma execução. Ele fez um sinal para os seguranças, mas antes que pudessem avançar, o som de sirenes da polícia rompeu a chuva.
Lucas correu para o terminal de rede protegido atrás do balcão de triagem, conectando o drive. O upload recomeçou. 50%… 70%…
A porta giratória do lobby explodiu em movimento. Policiais armados entraram, mas não se dirigiram a Arantes. Eles formaram uma barreira, armas apontadas para Lucas.
— Polícia Militar! Solte o dispositivo! — o oficial gritou.
Lucas olhou para a tela. O upload atingiu 99%. Ele pressionou 'Enviar' no exato momento em que sentiu o cano de uma arma tocar sua nuca. O sistema do hospital, em um último suspiro de resistência, derrubou a rede, mas o indicador de 'Envio Concluído' brilhou por um segundo antes da tela ficar preta.
Arantes sorriu, um gesto vazio. — Tarde demais, Menezes. A polícia não está aqui para me prender. Eles estão aqui para garantir que a purga seja completa.
Lucas olhou para Helena, que estava sendo imobilizada. O relógio em seu pulso zerou.