O Custo da Verdade
O bipe do monitor na Ala de Isolamento era um metrônomo cruel: restavam sessenta minutos para a purga definitiva do sistema. Elias Rocha, com o crachá de 'Lucas, TI' pendendo torto no peito, prensou o corpo contra a parede de fórmica. Pela fresta da porta, viu dois seguranças com cartões de acesso de nível administrativo. O cerco não era mais uma suspeita; era uma execução.
Beatriz Viana estava a dez metros, trancada na enfermaria 402. Ela precisava inserir a senha final para descriptografar o prontuário que incriminaria Mendes, mas o corredor era uma armadilha de sensores.
— Elias, não dá — a voz dela soou pelo rádio, um fio de desespero. — Eles estão na porta. Se eu abrir, o registro é apagado automaticamente.
— Se você não abrir, morremos em uma hora — Elias sibilou. Ele viu um dos seguranças sacar uma chave mestre. Sem hesitar, avançou, forçando a entrada no quarto segundos antes da trava magnética selar o setor. O ar lá dentro tinha um cheiro metálico de sangue. Beatriz estava encolhida contra a parede, a mão direita pressionando o flanco esquerdo, onde uma mancha escura se expandia no jaleco. Ela tentara impedir o acesso dos seguranças à rede central e pagara o preço.
— A senha, Beatriz. Agora — Elias exigiu, os olhos fixos na porta que tremia sob o impacto dos seguranças. — Se não abrirmos esse arquivo, todo o sacrifício terá sido em vão. Eles vão apagar o 402 e você será a próxima culpada.
Beatriz tossiu, os lábios pálidos. — Você não entende, Elias... O paciente 402 não morreu por falência. Ele foi cobaia para o novo protocolo de estabilização da diretoria. Eles forçaram a morte dele para testar a velocidade de descarte de evidências.
Elias sentiu o estômago revirar. Não era apenas corrupção financeira; era uma engenharia de descarte humano. Beatriz sussurrou o nome do paciente — a senha — no exato momento em que a porta começou a ceder. Elias conectou o pen drive ao terminal. A prova começou a carregar, mas o sistema de ventilação sibilou, fechando as válvulas de exaustão. O oxigênio estava sendo drenado.
— Elias, não dá — ela murmurou, os olhos perdendo o foco.
Se ele desconectasse o drive para carregar Beatriz, o upload seria resetado. O cronômetro marcava 60 minutos. Ele segurou a mão gélida de Beatriz e bloqueou o terminal com o próprio corpo, protegendo a única evidência que restava.
O chiado do alto-falante interrompeu o silêncio. A voz de Mendes ecoou, fria e onipresente:
— Elias Rocha. Eu sei que você está aí. O lockdown não é para te prender, é para te proteger da sua própria escolha. Eu posso apagar o registro do seu erro passado, Elias. Aquele prontuário de três anos atrás. Eu destruo o processo administrativo que ainda mancha sua ficha, e você me entrega o pen drive.
Elias olhou para o monitor. O tempo marcava 30 minutos. O upload, que ele acreditava estar estagnado, oscilou. Uma barra de progresso invisível avançava para um túnel criptografado externo. Mendes não estava monitorando; ele estava desesperado porque o vazamento já havia começado. Elias desligou o alto-falante, olhou para Beatriz e preparou-se para o fim.