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Chapter 10: O Relógio Final

Elias resgata Beatriz e, sob a pressão da purga de Mendes, consegue iniciar o upload da prova no servidor central, mesmo com o hospital entrando em colapso energético.

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O Relógio Final

O zumbido do relógio digital na parede da Enfermaria 402 não era um aviso; era uma sentença. Vinte e nove minutos e quarenta segundos. O visor eletrônico, um brilho carmesim que cortava a penumbra estéril, parecia sugar o oxigênio da sala. Beatriz estava encolhida contra o rack de servidores, a mão pressionando o flanco esquerdo. O sangue, escuro e espesso, manchava seu avental, mas seus olhos, fixos nos de Elias, mantinham uma lucidez aterrorizante.

— A senha, Elias — ela sussurrou, a voz cortada pela dor. — O nome do paciente. Samuel. Digite.

Elias Rocha não hesitou. Seus dedos, calejados pela rotina de encobrir os erros daquela instituição, dançavam sobre o terminal. Ele já havia inserido a chave privada de Mendes, uma prova que custara sua reputação e o pouco que lhe restava de paz. Com o cursor piscando na caixa de texto, ele digitou: S-A-M-U-E-L.

O túnel de dados se abriu. A barra de progresso do upload começou a preencher a tela, uma linha azul lenta, quase estática, que parecia zombar da urgência. De repente, a tela piscou. O cursor travou. Uma janela de sistema, com o brasão do hospital, sobrepôs-se ao arquivo.

"Rocha, você está jogando sua vida fora por um erro que já custou sua carreira uma vez. Apague isso e eu garanto que seu passado será enterrado com o paciente 402. Você não é um mártir, Elias. É um sobrevivente."

Mendes. O Diretor não estava apenas monitorando; ele estava corrompendo o arquivo de origem em tempo real. A porta da enfermaria deslizou com um silvo hidráulico. Mendes entrou, sozinho, com a postura impecável de quem nunca havia sujado as mãos, enquanto dois seguranças armados bloqueavam o corredor.

— Você acha que está expondo a verdade — a voz de Mendes era aveludada, impregnada com a autoridade de décadas — mas está apenas destruindo a única instituição que mantém esta cidade em pé. O governo não vai cair por causa de um prontuário. Você só será o bode expiatório de uma tragédia que ninguém quer ouvir.

Elias sentiu o peso do pen drive no bolso. Era a prova física de que o paciente 402 não fora um acidente, mas um teste de um protocolo de 'limpeza' governamental. Ele olhou para Beatriz, depois para o relógio: 25 minutos. A tentação da redenção pessoal — o apagamento de seu histórico de erro profissional — pairava como um veneno doce.

— Você está sozinho, Mendes — Elias respondeu, a voz firme, cortando o silêncio. — Seus aliados no governo já cortaram os laços. Eles não estão protegendo o hospital; estão esperando que você se torne o único responsável pela purga. Você é o descartável aqui.

O rosto de Mendes contraiu-se, uma rachadura na máscara de gestor visionário. A recusa de Elias foi o gatilho. Com um movimento brusco, Mendes ordenou a purga total do sistema. As luzes da enfermaria piscaram e morreram, deixando-os na penumbra avermelhada das luzes de emergência.

— Então, que tudo queime — sibilou Mendes, virando as costas.

Elias não perdeu tempo. Com o conhecimento técnico de quem já havia 'limpado' muitos problemas operacionais, ele arrancou o painel de acesso sob a mesa. Ele precisava forçar um curto-circuito planejado que sobrecarregaria o servidor central apenas o suficiente para abrir as travas magnéticas das portas de saída.

— Segure firme, Beatriz — ele ordenou, conectando os fios com as mãos nuas. O choque percorreu seu braço, mas a porta destravou com um estalo metálico.

Eles correram pelo corredor deserto, o zumbido do relógio agora um som ensurdecedor. Chegaram à sala de servidores, o coração do hospital. Elias conectou o dispositivo ao terminal principal. O upload reiniciou, mas o tempo marcava apenas 10 minutos. De repente, o silêncio absoluto tomou conta do prédio. Mendes havia cortado a energia principal. No escuro total, apenas a tela do servidor brilhava, projetando o rosto exausto de Elias. A barra de progresso continuou subindo, lenta, implacável, enquanto o sistema de segurança entrava em contagem regressiva para o colapso total do edifício.

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