A Conexão no Subsolo
O relógio digital na parede do corredor marcava 03:12. Faltavam menos de três horas para a purga definitiva dos logs do servidor. O ar no hospital, antes apenas estéril, agora parecia rarefeito, carregado com o cheiro metálico de desinfetante e o medo que emanava das paredes.
Bia Rocha caminhava com o peso de uma sentença de morte. Viana não a tinha nomeado auditora interna por mérito; ele a tinha transformado em um bode expiatório com um rastreador embutido no crachá. Cada passo que ela dava era registrado, cada porta que ela abria disparava um alerta silencioso na central de segurança. Ela precisava de Helena, a única enfermeira que vira o Dr. Viana desligar os aparelhos do paciente 402. Sem ela, o pendrive com os 15% dos dados descriptografados era apenas um arquivo sem rosto.
Ao chegar à lavanderia central, o vapor industrial a envolveu. Seu Jorge, o encarregado, não levantou os olhos das pilhas de lençóis manchados. Suas mãos tremiam tanto que o tecido parecia vibrar.
— Helena não está, Bia — a voz dele saiu como um sussurro rouco. — Vieram buscá-la há vinte minutos. Disseram que ela teve um surto psicótico. Transferiram-na para o Setor de Cuidados Intensivos de Alta Complexidade. O prontuário dela foi limpo. É como se ela nunca tivesse trabalhado aqui.
Bia sentiu o sangue fugir do rosto. A transferência para a UTI de alta complexidade não era um procedimento médico; era um isolamento institucional. Helena estava sendo silenciada sob o pretexto de um tratamento que ela não precisava.
— Quem deu a ordem? — Bia exigiu, a voz firme apesar do pânico.
— Viana. Ele mesmo assinou a remoção. Saia daqui, Bia. Eles estão limpando tudo o que toca no 402.
Bia recuou, o coração martelando contra as costelas. O hospital estava fechando o cerco. Ela precisava de uma alternativa, alguém que tivesse visto o que Helena viu. Ela se lembrou do bilhete que encontrara no vestiário: um nome, Marcos, um residente que costumava fazer o turno da madrugada no subsolo, longe das câmeras da administração.
Às 03:45, ela desceu pelas escadas de serviço, ignorando os avisos de "Acesso Restrito". O subsolo era um labirinto de tubulações de oxigênio e silêncio opressor. Ela encontrou Marcos encolhido atrás de um cilindro de gás, os olhos fixos na porta de metal, como se esperasse um carrasco.
— Viana está caçando todo mundo — Marcos soluçou, entregando um envelope pardo com as mãos trêmulas. — Aqui estão as ordens de dosagem. Bloqueadores neuromusculares, assinados por ele. Não havia indicação clínica. Ele executou o paciente do 402 para esconder o erro na cirurgia anterior.
Bia abriu o envelope. A caligrafia de Viana era inconfundível. Era a prova que ela precisava para destruir a fachada do diretor, mas o peso do papel parecia uma âncora. O som de botas táticas ecoou no corredor de concreto. Os seguranças de Viana estavam descendo. O cerco não era apenas administrativo; era físico.
— Você tem que sair daqui — Marcos sussurrou, empurrando-a em direção a uma saída de ventilação. — Se te pegarem com isso, você não chega até as 06:00.
Bia correu, o envelope escondido sob a blusa. Ela alcançou o estacionamento externo, o ar frio da noite brasileira cortando seu rosto. Ela precisava chegar ao seu carro, mas, ao se aproximar, um sedã preto bloqueou sua saída. O motorista não desceu. Apenas os faróis altos se acenderam, cegando-a. O hospital não a deixaria sair com a verdade. O relógio marcava 04:02. A purga estava próxima, e ela estava encurralada.