O Residente Desaparecido
O motor do meu carro engasgou, um som metálico que parecia um grito no silêncio opressor do subsolo. 04:02. O envelope pardo no banco do passageiro pesava mais que chumbo; dentro dele, as prescrições de bloqueadores neuromusculares assinadas por Viana eram a sentença de morte do hospital, ou a minha. Ao engatar a ré, um sedan preto surgiu da penumbra da rampa de saída, bloqueando o caminho com precisão cirúrgica. Os faróis altos cegaram-me, refletindo no vidro fumê. Não era um cliente perdido. Era um aviso.
Um vulto grande, com o uniforme de segurança padrão, desceu com a mão no cinto. Ele não tinha pressa. Ele sabia que eu estava encurralada. Abandonei o carro com o motor ainda ligado e disparei em direção à grade de ventilação do subsolo. O metal rangia sob minhas botas enquanto eu me arrastava pelos dutos, o cheiro de poeira e ferrugem sufocando meus pulmões. Atrás de mim, o eco de passos pesados no concreto confirmava: a caçada não era mais uma suspeita, era uma perseguição em tempo real.
Cheguei ao Hotel Alvorada às 04:18. O cheiro de mofo e desinfetante barato era um contraste obsceno com a esterilidade fria do hospital. Marcos abriu a porta 102 com uma fresta, o rosto pálido, os olhos injetados. Ele estava pronto para desaparecer.
— Você foi seguida, Bia? — ele sussurrou, a voz falhando.
— Esquece isso. Você tem o que prometeu? — Eu não tinha tempo para diplomacia.
Marcos recuou, tremendo. Ele não era um herói; era um residente apavorado, com uma dívida estudantil impagável e um medo paralisante de perder a licença médica. Ele entregou o envelope. Dentro, documentos assinados por Viana detalhavam o desvio de verbas de medicamentos de alto custo para cobrir o rombo da ala nova. O paciente 402 não fora erro; fora uma execução para silenciar uma denúncia de superfaturamento.
— Eles nos acharam — Marcos murmurou, apontando para a janela. O sedan preto estava estacionado na entrada do hotel. Dois homens desceram.
O sistema de rastreamento do hospital não era apenas uma ferramenta administrativa; era uma rede de caça. Bia olhou para o celular de Marcos, que vibrava com um alerta de intrusão.
— Eles estão usando o nosso sinal — disse ela, a percepção atingindo-a como um soco. Sem hesitar, Bia arrancou o chip do aparelho de Marcos e, em seguida, o seu. O silêncio que se seguiu foi absoluto. Eles escaparam pela janela do banheiro para um beco úmido, ouvindo o barulho da porta do quarto sendo arrombada segundos depois.
De volta às sombras do perímetro hospitalar, o relógio marcava 04:45. A purga dos logs aconteceria em pouco mais de uma hora. Eu não podia mais fugir da cidade; se eu saísse, Viana venceria o jogo antes de o sol nascer. Eu precisava retornar. O acesso de auditoria que Viana me impusera era uma algema, mas também era uma chave. Eu precisava subir o arquivo de Marcos para o servidor central antes das 06:00.
Ao passar pela entrada de serviço, o sistema de som do hospital ecoou, distorcido e metálico:
— Dra. Beatriz Rocha, compareça imediatamente à diretoria.
O aviso não era um pedido. Era o som de uma armadilha se fechando. Entrei no saguão, o coração martelando contra as costelas. O hospital parecia um organismo vivo, sentindo minha presença e tentando me expelir. Eu olhei para o relógio: 05:15. A caçada oficial começara, e eu estava exatamente onde eles queriam que eu estivesse: no centro da fera.