Cerco Administrativo
O zumbido dos servidores, antes um ruído de fundo, agora soava como o rosnado de uma fera encurralada. Eram 02:42. O ar-condicionado da sala de TI, que deveria manter o ambiente gélido, parecia ter falhado; o calor dos racks de processamento subia, tornando o ar denso, quase irrespirável. Bia Rocha sentia o pendrive no bolso da calça como uma brasa viva. Ao lado dela, Lucas estava paralisado, os dedos travados sobre o teclado enquanto o monitor principal exibia a sentença em letras vermelhas: Formatação Remota em Execução - 42%.
A porta de vidro temperado deslizou com um silvo hidráulico. Dr. Arnaldo Viana entrou. Não havia seguranças, nem a urgência de quem flagra um crime; ele caminhava com a cadência de quem inspeciona uma propriedade privada. Ele parou a poucos metros, ignorando Lucas, que parecia prestes a entrar em choque, e fixou o olhar em Bia.
— A curiosidade é uma falha de sistema, Beatriz — disse Viana, a voz desprovida de qualquer emoção. — Vocês gastaram horas tentando recuperar fantasmas. O prontuário 402 já não existe em nenhum servidor desta rede.
Bia manteve a postura, embora o coração martelasse contra as costelas, um ritmo frenético que ela temia ser audível. Ela tinha 15% da verdade ali, gravada no plástico barato que escondia entre os dedos.
— O senhor cometeu um erro, Doutor — ela respondeu, a voz firme apesar da secura na garganta. — Arquivos podem ser deletados, mas o rastro de quem os apagou é permanente.
Viana riu, um som seco que ecoou entre os racks de metal. Ele caminhou até a mesa de Lucas, observando a barra de progresso da formatação. Com uma calma cirúrgica, ele estendeu a mão, esperando. Bia hesitou. A ameaça implícita — a vida da mãe de Lucas, a estabilidade de sua própria carreira — pesava mais que o medo. Ela entregou o crachá. Viana o deslizou pelo leitor, ativou algo no terminal e o devolveu com um toque cerimonioso.
— Você não está demitida, Beatriz. Pelo contrário. Você agora é a nossa principal auditora interna. O sistema registrará cada um dos seus movimentos. Se algo for encontrado, a culpa será sua. Se algo desaparecer, a responsabilidade será sua.
Ele saiu da sala sem olhar para trás. O sistema de segurança disparou um alerta de Acesso Não Autorizado assim que a porta se fechou. Viana não a prenderia; ele a usaria como bode expiatório até as 06:00. Ele a deixou dentro do hospital para que ela se auto-incrimine.
— Ele nos deu um prazo, Bia — Lucas sussurrou, a voz trêmula. — Ele sabe que estamos sozinhos. Onde vamos encontrar a enfermeira Helena? Ela é a única que pode confirmar a dosagem de bloqueador neuromuscular.
Bia correu para o terminal. O cronômetro digital marcava 03:12. Ela navegou pela árvore de diretórios da ala de isolamento, mas a tela respondeu com um erro de acesso negado. O registro de escala de Helena havia sido sobrescrito há dez minutos.
— Ela não está mais no setor administrativo — Bia constatou, o sangue gelando. — Transferiram a testemunha para o Setor de Cuidados Intensivos de Alta Complexidade. É uma área de acesso restrito que exige nível de chefia que eu não tenho mais.
O hospital estava fechando o cerco. Não eram apenas os dados digitais que estavam sendo apagados; as pessoas, as testemunhas humanas, estavam sendo movidas para um limbo institucional onde nenhum prontuário poderia alcançá-las. A enfermeira que Bia procurava foi transferida para um setor inacessível. O hospital estava fechando o cerco sobre as testemunhas.