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Chapter 3: Fragmentos de uma Verdade Apagada

Bia sacrifica sua credencial de administrador para permitir que Lucas finalize a descriptografia de um vídeo que incrimina Viana. O arquivo revela o Dr. Viana desligando os aparelhos do leito 402, mas a vitória é efêmera: o sistema é formatado remotamente e a porta da sala de TI está prestes a ceder. Bia e Lucas testemunham, através de um fragmento de vídeo, o Dr. Viana desligando os sinais vitais do paciente 402 e manipulando o prontuário. A chegada de Viana à sala de TI culmina na formatação remota do servidor, apagando as evidências digitais. Bia consegue salvar um fragmento no pendrive, mas Viana a encurrala, revelando que a auditoria está sendo redirecionada para incriminá-la como a invasora do sistema. Viana confronta Bia e Lucas na sala de TI, mas opta por uma intimidação psicológica em vez de prisão imediata. Ele devolve o crachá de Bia, forçando-a a entender que ela agora é a principal suspeita da auditoria. Logo após sua saída, o sistema é formatado remotamente, deixando Bia com a prova em mãos, mas com o peso de uma incriminação inevitável conforme o relógio se aproxima das 06:00. Bia e Lucas testemunham a formatação remota do servidor de segurança, perdendo a prova digital. Ao perceber que seu crachá é um rastreador, Bia o descarta, tornando-se uma fugitiva isolada dentro do hospital enquanto a purga dos logs se aproxima.

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Fragmentos de uma Verdade Apagada

O Cerco na Sala de Servidores

O zumbido dos servidores parecia uma contagem regressiva amplificada. Eram 02:35 da manhã, e a luz fria dos monitores projetava sombras trêmulas no rosto de Lucas. Suas mãos, ágeis sobre o teclado, tremiam enquanto o sistema de segurança do hospital emitia um alerta intermitente: Intrusão detectada. Setor 4-B.

— Eles sabem, Bia — sussurrou ele, a voz falhando. — O Viana bloqueou o acesso remoto. Se eu não descriptografar isso agora, a purga vai apagar tudo antes das seis.

Um baque surdo ecoou contra a porta de aço reforçado. O Dr. Arnaldo Viana não batia; ele exigia entrada. O som foi seguido pelo chiado metálico de um cartão magnético sendo passado repetidamente no leitor externo. O sistema estava negando o acesso de Viana, mas cada tentativa de forçar a entrada fazia a iluminação da sala oscilar, como um coração em falência.

Bia Rocha sentiu o peso do próprio desespero. Ela havia entregado seu crachá de supervisora para Lucas segundos antes, um suicídio profissional que a deixara sem escudo. Se Viana entrasse, ela seria a intrusa, a funcionária desonesta que tentou manipular os registros do leito 402. O prontuário, contendo a prova da dosagem letal de bloqueador neuromuscular, era a única coisa que importava agora.

— Use o meu código de administrador — disse Bia, a decisão rasgando sua garganta. Ela sabia que aquele ato seria o prego final em seu caixão na instituição. O código era pessoal, intransferível e, se usado para fins ilícitos, garantia uma denúncia criminal imediata.

— Bia, se você fizer isso, seu login será rastreado até o terminal — Lucas hesitou, os olhos fixos na barra de progresso que estagnara em 88%.

— Eles já estão na porta, Lucas. Não temos escolha.

Ela digitou a sequência de números. O som do teclado foi abafado por um novo impacto na porta. Desta vez, a estrutura cedeu milímetros. O sistema de segurança, reconhecendo a credencial de alto nível, parou de emitir o alerta de intrusão e abriu a porta para a descriptografia final. A tela mudou abruptamente, exibindo os arquivos de vídeo do corredor 402.

Lá estava ele. A imagem granulada mostrava o Dr. Viana entrando no quarto do paciente com uma seringa escondida sob o jaleco. Ele parou diante do monitor cardíaco, olhou para a câmera com uma frieza cirúrgica e desligou os dispositivos de suporte à vida.

Bia prendeu a respiração, o horror cristalizando-se em sua mente. O vídeo confirmava o assassinato administrativo. No exato instante em que a imagem se estabilizou, a tela ficou preta. O servidor de segurança, contornando a descriptografia, havia sido formatado remotamente. A prova desaparecera do sistema hospitalar, restando apenas o pendrive nas mãos trêmulas de Lucas, enquanto a maçaneta da porta girava com um estalo seco.

O Rosto da Impunidade

O zumbido dos servidores parecia um enxame de vespas prestes a atacar. Bia Rocha estava paralisada, os olhos fixos no monitor de Lucas. A tela exibia o corredor do quarto 402, granulado pela compressão, mas o suficiente para identificar a silhueta alta e impecável do Dr. Arnaldo Viana. Ele não estava ali para uma checagem de rotina.

No vídeo, Viana parou, olhou para os dois lados do corredor vazio e entrou no 402. Segundos depois, os monitores de sinais vitais do paciente oscilaram — o alerta de bradicardia silencioso, sem alarme sonoro. Viana saiu do quarto, sua expressão era de uma calma cirúrgica, enquanto digitava algo no tablet. Ele não estava salvando uma vida; estava finalizando um erro.

— Ele desligou o suporte — sussurrou Lucas, os dedos trêmulos sobre o teclado. — Bia, o sistema começou a purga. A formatação remota foi ativada assim que você acessou o log de privilégios. Eles sabem que estamos aqui.

Um estalo metálico na porta da sala de TI cortou o ar. Viana não bateu; ele entrou como quem entrava em sua própria casa. Ele não parecia surpreso ao encontrar Bia, apenas decepcionado, como se ela fosse uma peça de equipamento que finalmente precisava ser descartada.

— O trabalho de auditoria é solitário, Bia — disse Viana, caminhando lentamente em direção à bancada. — Mas a curiosidade é um custo que o hospital não pode mais pagar.

Bia sentiu o suor frio escorrer por sua coluna. O relógio na parede, um cronômetro digital de auditoria, brilhava em vermelho: 03:12. A barra de progresso da cópia no pendrive de Lucas estagnou em 45%. O servidor central emitia um chiado agudo, os arquivos sendo destruídos em tempo real.

— O que você fez com o prontuário 402? — a voz de Bia saiu firme, apesar do desespero que corroía suas entranhas.

Viana parou atrás de Lucas, observando a tela onde o vídeo do crime desaparecia em pixels corrompidos. Com um movimento ágil, ele desconectou o cabo principal da rede. A tela piscou e ficou preta. O servidor, agora isolado, entrou em modo de formatação definitiva. O vídeo, a prova, a única coisa que separava Bia da demissão imediata ou de algo pior, evaporou.

— Você não entende, Bia — Viana sorriu, um gesto desprovido de qualquer calor. Ele estendeu a mão, esperando o crachá que ela já não tinha. — Algumas verdades são ineficientes. Elas não servem ao propósito de cura desta instituição.

Lucas, com um movimento desesperado, arrancou o pendrive da porta USB antes que a eletricidade estática do servidor o fritasse. A mão de Bia fechou-se sobre o metal quente. Viana observou a cena, o sorriso se alargando. Ele não parecia preocupado com o que ela carregava.

— Pode ficar com isso — disse Viana, recuando em direção à porta. — O seu crachá, Bia. Eu mesmo o desativei. Você está presa aqui dentro até o amanhecer, e a auditoria externa acaba de ser notificada sobre uma invasão de sistema vinda da sua credencial. Você não é a denunciante, Bia. Você é a culpada.

O Jogo de Poder

O ar na sala de servidores era gélido, carregado pelo zumbido elétrico constante que parecia uma contagem regressiva para o colapso. Bia sentiu o sangue fugir do rosto quando a porta deslizante se abriu, revelando a silhueta impecável do Dr. Arnaldo Viana. Ele não estava acompanhado pela segurança; ele estava sozinho, com as mãos enterradas nos bolsos do jaleco branco, o sorriso habitual esculpido em um rosto que não demonstrava surpresa, apenas uma autoridade predatória.

Lucas, paralisado diante do terminal, tentou bloquear a tela com o corpo, mas o movimento foi inútil. Viana já tinha visto o suficiente.

— O setor de TI costuma ser um lugar silencioso às três da manhã, Bia — disse Viana, caminhando lentamente em direção ao console. Cada passo dele soava como um martelo contra o silêncio da sala. — Vejo que você encontrou um uso produtivo para suas horas extras. Ou seria para o seu crachá de administrador, que, por um erro de logística, ainda está em posse do nosso técnico?

Bia sentiu o peso do pendrive no bolso do jaleco. O arquivo que acabara de assistir — a imagem granulada de Viana desligando os monitores do leito 402 — ardia em sua mente como uma evidência radioativa. Ela sabia que, se ele soubesse do conteúdo, ela não estaria mais respirando aquele ar climatizado.

— O sistema apresentou uma inconsistência no prontuário 402 — Bia respondeu, mantendo a voz firme, embora suas mãos estivessem úmidas. — Apenas seguindo o protocolo de integridade de dados.

Viana parou a poucos centímetros dela. O cheiro de antisséptico caro era sufocante. Ele estendeu a mão, esperando. Lucas, com os olhos injetados de pavor, hesitou, mas acabou entregando o crachá de Bia para o diretor. Viana o observou por um segundo antes de colocá-lo sobre a bancada, deslizando-o de volta para ela com a ponta dos dedos.

— Protocolo é uma palavra fascinante, Bia. Mas, às vezes, a curiosidade mal direcionada pode ser fatal para uma carreira promissora — Viana baixou o tom, aproximando-se de seu ouvido. — Você tem até as seis da manhã para decidir se quer ser uma funcionária exemplar ou apenas mais um erro que o sistema precisa corrigir. O hospital é um ecossistema delicado. Não tente ser o vírus que o destrói.

Ele se virou, ignorando Lucas completamente, como se o técnico fosse apenas parte do mobiliário. Antes de sair, Viana lançou um último olhar sobre o ombro, um aviso silencioso que pesava mais que qualquer ameaça verbal.

No instante em que a porta se fechou, o monitor principal piscou. Uma sequência de erros em cascata preencheu a tela. O servidor central, a base de tudo, acabara de ser formatado remotamente. A prova que eles tinham no pendrive era agora o único registro daquela noite. Mas, ao olhar para Lucas, Bia percebeu o brilho de terror absoluto nos olhos dele: Viana não a deixou sair porque ela era inocente. Ele a deixou livre para que ela se tornasse a única culpada pela purga dos logs que começaria em menos de três horas.

O Relógio Não Para

O ar na sala de servidores era gélido, mas o suor escorria pelas têmporas de Bia. O monitor principal piscou uma última vez antes de apagar, deixando apenas o reflexo distorcido de seu rosto no vidro escuro. O servidor de segurança havia sido formatado remotamente. A prova da injeção de bloqueador neuromuscular, o registro que ela passara a noite inteira caçando, fora evaporada pelos dedos invisíveis de alguém com privilégios de superusuário.

— Ele nos viu — sussurrou Lucas, as mãos trêmulas pairando sobre o teclado inútil. — Ele viu que entramos, Bia. Ele não apenas apagou o log, ele apagou a nossa presença no sistema.

Bia olhou para o relógio digital na parede: 04:15. Faltavam menos de duas horas para a purga definitiva de todos os logs do hospital. O tempo não era mais apenas uma medida; era uma sentença.

— Levante-se — ordenou ela, a voz firme, embora seu estômago desse voltas. — Se ficarmos aqui, seremos os culpados pela falha de rede que ele mesmo provocou.

Eles saíram para o corredor. O hospital, antes um labirinto familiar, parecia agora uma armadilha projetada para o reconhecimento facial. Cada câmera de segurança no teto parecia girar um milímetro a mais para acompanhá-los. Bia sentiu o peso do crachá que Viana lhe devolvera minutos antes. Ao tocar no plástico, uma intuição gélida a atingiu: não era apenas uma identificação, era um rastreador. A cada passo, sua localização exata era transmitida para o console central da diretoria clínica.

— Eles sabem onde estamos — disse Bia, parando bruscamente diante de um duto de lixo hospitalar.

— O que você está fazendo? — Lucas perguntou, o pânico subindo um tom em sua voz.

Sem responder, Bia desclipou o crachá do pescoço. O dispositivo de proximidade emitia um zumbido quase imperceptível, uma batida de coração eletrônica que a entregava a Viana. Com um movimento seco, ela o arremessou na abertura metálica. O som do plástico batendo no fundo do duto soou como uma declaração de guerra.

Agora, ela estava oficialmente invisível para o sistema de segurança, mas também estava presa. Sem o crachá, ela não conseguiria passar pelas portas magnéticas, não teria acesso aos elevadores, nem a saída principal. Ela trocara a segurança de sua posição pela chance de não ser monitorada, tornando-se uma fugitiva dentro do próprio local de trabalho.

— Você acabou de se tornar uma fantasma — Lucas murmurou, a cor sumindo de seu rosto. — Eles vão bloquear o andar inteiro antes das cinco.

Bia olhou para o fim do corredor, onde a luz de emergência piscava em um ritmo cardíaco, e sentiu o peso da escolha. O relógio não parava, e agora, ela não tinha mais para onde voltar.

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