O Preço do Acesso
O suor frio colava a blusa de Bia às costas enquanto ela atravessava o corredor administrativo. Às 02:35, o hospital não era um local de cura, mas uma máquina de vigilância. O visor de seu crachá, antes um verde estável, agora pulsava em um âmbar errático. O sistema de segurança não estava apenas registrando sua presença; estava caçando sua conta de usuário. Ela era um erro de sistema prestes a ser deletado.
Ela parou diante da porta de vidro fosco do setor de TI. O painel de controle exibia em letras vermelhas: ACESSO NÃO AUTORIZADO - ALERTA DE AUDITORIA. O gatilho fora armado especificamente para o prontuário 402. Bia não hesitou; forçou a trava magnética com a força do desespero, o metal cedendo com um estalo seco que ecoou pelo corredor vazio.
Dentro da sala de servidores, o ar era cortante, saturado pelo zumbido das ventoinhas e o cheiro de ozônio. Lucas estava curvado sobre um terminal, o rosto pálido banhado pela luz azulada de linhas de código que corriam como uma contagem regressiva. Ele não se virou.
— Você é uma idiota, Bia — ele sibilou, a voz trêmula. — O alerta já disparou. O Dr. Viana sabe que alguém acessou o 402. Ele só não sabe que é você… ainda.
Bia jogou o pendrive sobre a bancada. O plástico estava quente, uma prova física de um crime administrativo que o hospital tentava enterrar.
— Eu preciso descriptografar o resto. Temos até as 06:00 antes da purga automática. Se esses logs sumirem, a morte daquele paciente vira apenas um erro de prontuário.
Lucas girou a cadeira. Seus olhos estavam fundos, as olheiras profundas como cicatrizes.
— Você não entende o ecossistema aqui. O hospital monitora cada batida de tecla. Eu só estou vivo porque limpo os rastros dos outros. Se eu descriptografar isso, eu me torno o alvo.
— Por que você obedece a ele? — Bia perguntou, a voz cortante.
Lucas hesitou, a mandíbula travada.
— Minha mãe depende do plano de saúde vitalício deste hospital. Se eu for demitido, ela é transferida para a rede pública amanhã. Ela não sobrevive a isso. Você está me pedindo para escolher entre a verdade e a vida dela.
Bia sentiu o peso da confissão. O hospital não usava apenas medo; usava a dependência social como coleira. Ela arrancou o crachá do pescoço e o colocou sobre a mesa, ao lado do pendrive.
— Minha senha tem nível de administrador. Se usarmos a minha conta, o rastro de auditoria aponta para mim. Eu assumo a responsabilidade. Você só precisa girar a chave.
Lucas encarou o crachá como se fosse uma granada sem pino. O contador no canto da tela marcava 03:25 para a purga. O sistema de segurança era um monstro faminto, e eles estavam oferecendo a própria carreira para alimentá-lo.
— Se eu fizer isso, não tem volta — ele murmurou, os dedos pairando sobre o teclado. — O Viana é o fiador da minha dívida. Ele vai te destruir.
— Digita — ela ordenou.
Ele digitou. O sistema começou a processar a descriptografia. A barra de progresso avançava: 42%... 45%... O log de acesso, antes corrompido, começou a revelar a assinatura manual de Viana na dosagem letal de bloqueador neuromuscular.
De repente, o som de um cartão magnético sendo passado no leitor externo da porta de TI ecoou como um tiro. O visor na porta brilhou em um azul autoritário: DIRETOR CLÍNICO - ARNALDO VIANA.
Lucas empalideceu, as mãos paralisadas. A porta começou a abrir.
— Ele veio buscar o que você tentou roubar — sussurrou Lucas, a voz morrendo na garganta.