O Erro no Prontuário 402
O ar no arquivo morto do Hospital Santa Cecília tinha gosto de mofo e desinfetante vencido. Eram 02:14 da manhã. Beatriz Rocha ajustou a luminária de mesa, o único ponto de luz na penumbra sufocante do subsolo. O silêncio não era paz; era a pressão de milhares de prontuários selados, um cemitério de papel onde a verdade ia para ser esquecida.
Bia dedilhava o teclado com a precisão de quem não podia errar. A auditoria de rotina era o pretexto perfeito para cruzar os óbitos do último trimestre. Mas, ao acessar o leito 402, o sistema travou. O paciente, um homem de 64 anos, deveria ter tido morte natural por insuficiência cardíaca. Bia abriu a prescrição final. A assinatura eletrônica era do Dr. Arnaldo Viana. O fármaco listado: um bloqueador neuromuscular em dose letal.
O sangue de Bia gelou. Não era erro médico; era um acerto de contas institucional. O baque no peito foi imediato, o mesmo aperto que sentira anos atrás, quando o prontuário de seu pai foi alterado para ocultar uma falha de esterilização. A história estava se repetindo, mas desta vez, ela tinha o cursor na mão.
Ela tentou copiar o arquivo para um drive criptografado. O monitor piscou. Uma barra de progresso surgiu, acompanhada por um contador regressivo: 03:58:12 para a purga dos logs. O sistema não estava apenas arquivando; estava deletando provas. Ao atingir 15% da cópia, o som metálico de botas pesadas ecoou no corredor de serviço. Bia retirou o pendrive e se encolheu atrás de uma pilha de caixas, prendendo a respiração enquanto o feixe da lanterna do segurança varria o corredor, parando exatamente na fresta da porta.
Quando o segurança seguiu em frente, Bia correu pelos corredores de serviço até a sala de servidores. O frio ali era cortante. Lucas estava sentado à frente de um terminal, a pele pálida sob o reflexo azul das telas.
— Você não deveria estar aqui, Bia — murmurou ele, sem desviar os olhos do código. — Se o sistema registrar sua presença, o Dr. Viana saberá antes de você sair pela porta.
— O prontuário 402 foi alterado. Preciso que você recupere o histórico antes que a auditoria das 06:00 apague tudo — Bia disparou, a voz trêmula de urgência.
Lucas virou a cadeira, a boca contraída em uma linha de pavor puro.
— Você acha que é a primeira a encontrar algo assim? Eu ajudo a limpar esses logs há dois anos. Tenho uma dívida com este hospital, Bia. Uma dívida que vai além do salário. Viana detém as chaves da minha vida, da minha família. Se eu te ajudar, eu perco tudo.
Ele tentou fechar o terminal, mas o sistema travou. Um alarme silencioso, uma vibração que Bia sentiu nas solas dos pés, tomou conta da sala. No monitor principal, o contador de tempo para a purga saltou de horas para minutos. O alerta do sistema piscou em vermelho sangue: 'Acesso Não Autorizado'. Bia percebeu que não estava apenas investigando; ela estava sendo caçada.