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Chapter 9: O Labirinto de Aço

Bia, encurralada na sala de servidores, prioriza o upload digital do 'Livro-Razão Negro' enquanto presencia, através do vidro, a execução de Tiago por Mendes. O sistema de purga, vinculado aos batimentos de Tiago, avança enquanto o andar é selado e o incinerador destrói as provas físicas. Bia ganha dez minutos de sobrevida ao hackear a iluminação, mas a segurança privada começa a cortar a porta blindada.

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O Labirinto de Aço

O monitor cardíaco na ala psiquiátrica não emitia apenas um som; era uma contagem regressiva em tempo real. Cada bipe metálico, ritmado e frio, confirmava que Tiago ainda respirava. Se o ritmo caísse para uma linha reta, o sistema de purga do hospital — o "Livro-Razão Negro" — deletaria permanentemente todos os registros de óbitos forçados em sessenta segundos.

Bia estava agachada na sala de servidores, o ar condicionado industrial soprando um frio cortante que não conseguia resfriar o suor em sua nuca. O upload do arquivo principal, uma prova irrefutável de que o hospital operava como uma central de extermínio para otimização de leitos, estava em 90%.

Através do vidro reforçado, ela via a cena como um pesadelo em câmera lenta. O Dr. Arisvaldo Mendes, impecável em seu jaleco, ajustava a bomba de infusão ao lado de Tiago. Ele não estava salvando o técnico; estava acelerando o fim. Tiago, com os pulsos algemados à grade da cama, tentava balbuciar algo, mas o sedativo transformava suas súplicas em um murmúrio ininteligível.

— Vamos, Tiago… aguenta — sussurrou Bia, os dedos voando sobre o teclado improvisado.

O sistema de segurança, detectando a intrusão, começou a selar o andar. Portas de aço desceram com um estrondo surdo, isolando a ala. O cheiro de papel queimado invadiu o duto de ventilação. O sistema de descarte pneumático estava enviando prontuários físicos direto para o incinerador central. A história do hospital estava sendo reduzida a cinzas, uma por uma.

Bia tateou a lateral do duto e seus dedos tocaram algo rígido: uma pasta física com o selo do Conselho de Ética: Projeto de Otimização de Leitos - Fase II. O peso da pasta era a prova definitiva, mas o download digital estava em 92%. Se ela desconectasse o drive para levar a pasta, a conexão oscilaria. Se ficasse, a pasta seria incinerada.

O monitor de pulso de Tiago emitiu um bipe agonizante, mais longo que os anteriores. Mendes sorriu, um gesto mínimo, quase imperceptível, enquanto observava o paciente. Bia soltou a pasta. Ela a viu deslizar pela calha, caindo direto no fogo. O sacrifício era o preço da verdade. Ela focou toda a largura de banda na transmissão digital.

O corredor mergulhou em penumbra. Bia forçou o sistema de iluminação usando o código de acesso herdado de seu pai, disparando luzes estroboscópicas que cegaram os seguranças de Mendes por segundos preciosos. Ela se trancou na sala de controle, ouvindo as batidas frenéticas na porta blindada.

— Beatriz, você é inteligente, mas está brincando com uma arquitetura que não compreende — a voz de Mendes ecoou pelos alto-falantes, carregada de um escárnio frio. — O Livro-Razão não é um arquivo. É a estrutura deste feudo. Termine esse envio e não haverá retorno para você ou sua filha.

O contador travou em 95%. O sistema de purga exigia uma senha de administrador que apenas Mendes possuía. Bia precisava de uma manobra de desvio de rede. Dez minutos. O relógio na tela parecia uma contagem regressiva para sua própria execução. Do outro lado da porta, o som de um maçarico de corte começou a lamber o aço. O cheiro de metal aquecido invadiu a sala. Ela tinha dez minutos para que o mundo visse a verdade, antes que o aço cedesse e o Livro-Razão Negro se tornasse, finalmente, seu epitáfio.

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