Confronto no Corredor Estéril
O som do maçarico contra a porta de aço da sala de servidores não era apenas ruído; era a contagem regressiva da própria Bia. O metal, antes cinza e frio, agora sangrava um laranja incandescente, espalhando faíscas que dançavam como vaga-lumes em um cemitério de cabos. Bia Rocha, encurralada no centro daquele labirinto de luzes azuis, sentia o ar rarefeito. O monitor à sua frente exibia a barra de progresso do Livro-Razão Negro: 95%. Dez minutos. Era o tempo que restava antes que o sistema de purga, agora acoplado aos batimentos cardíacos de Tiago, deletasse cada evidência da rede.
Ela havia hackeado a iluminação do andar, mergulhando o corredor em uma penumbra forçada, mas o brilho do maçarico revelava o avanço inexorável da segurança. Quando a última dobradiça estalou e a porta cedeu com um estrondo metálico, Bia não recuou. Ela não tinha para onde ir.
O Dr. Arisvaldo Mendes entrou, ajustando os punhos do paletó impecável. A luz do corredor, vinda de trás dele, projetava sua silhueta como a de um carrasco. Atrás dele, dois seguranças armados aguardavam o sinal. Mendes ergueu a mão, um gesto de autoridade absoluta.
— Você tem uma tenacidade admirável, Beatriz — a voz dele era um sussurro aveludado, desprovida de qualquer traço de urgência. — Mas está desperdiçando sua vida em uma cruzada de papel. O Livro-Razão Negro não é um erro. É o sistema. Ele sustenta a elite desta cidade, a mesma que financia a escola da sua filha e o tratamento que você tanto busca.
Bia sentiu o coração martelar contra as costelas. 97%. Ela precisava prendê-lo ali. Cada segundo de conversa era um segundo de upload.
— Você matou o Tiago — ela rebateu, a voz firme, apesar da tremedeira nas pernas. — Você transformou a vida de um funcionário em um gatilho de purga. Isso não é medicina, Mendes. É execução por lucro.
— É otimização — ele corrigiu, invadindo o espaço pessoal dela com um sorriso condescendente. — Se você me entregar o dispositivo e esquecer o que viu, posso garantir que sua filha nunca precise de nada. Uma nova vida, longe daqui. Você pode ser a heroína da sua própria história ou apenas mais um prontuário arquivado. O que me diz?
Bia sentiu o peso do celular contra a pele. Enquanto ele falava, ela ativou a gravação oculta. A cada palavra dele, a prova contra o hospital se tornava mais inquestionável. 98%. Ela precisava de mais um minuto.
— Eu digo que a verdade tem um preço, doutor — ela disse, mantendo os olhos fixos nele. — E o seu acabou de subir.
O brilho do celular, ao ser ajustado, traiu sua intenção. A máscara de benevolência de Mendes caiu, revelando o predador. Ele percebeu a farsa, e o sorriso sumiu, substituído por um desdém gélido.
— Pegue o aparelho — ordenou Mendes, virando as costas. — E depois, limpe o resto.
Os seguranças avançaram. Bia, usando sua experiência em anatomia e os pontos de pressão aprendidos nos anos de triagem, girou para fora do alcance do primeiro, aplicando uma chave de braço que o fez colidir contra a mesa de servidores. Ela correu para o corredor, mas Mendes foi mais rápido. Ele bloqueou a saída, flanqueado pelos outros dois homens, fechando o cerco. Ele estendeu a mão, o olhar frio travado no dela.
— O upload, Beatriz. Agora.
Bia olhou para o monitor através da porta aberta. 99%. O cursor piscava, lento, agonizante. De repente, a tela ficou preta. Um silêncio absoluto tomou conta do corredor. A segurança central havia cortado a conexão externa. Mendes sorriu, um triunfo absoluto iluminando seu rosto.
— Acabou — ele murmurou. — O sistema sempre vence.