Fragmentos no Lixo
O ar no subsolo do Hospital Santa Cecília não era apenas frio; era estéril, carregado com o cheiro metálico de ozônio e desinfetante vencido. Eram 03h14. Na parede do corredor de serviço, o relógio digital de contagem regressiva piscava em um vermelho agressivo: 58 horas para a purga total do sistema. Bia Rocha sentiu o peso da chave mestra de seu pai no bolso do jaleco. Aquele pedaço de metal analógico, uma relíquia de uma era pré-digital, era a única coisa que o sistema de segurança do hospital não conseguia prever ou bloquear. Era sua última alavanca.
Ela entrou na sala de servidores sem bater. Tiago estava encolhido diante de um terminal secundário, os dedos trêmulos sobre o teclado. Ele não se virou.
— Você não deveria ter vindo, Bia — a voz dele era um fio, quase inaudível sob o zumbido constante dos racks de refrigeração. — O protocolo de auditoria disparou um alerta no setor administrativo assim que você usou a chave. Mendes sabe. Ele está vindo.
Bia ignorou o pavor dele. Ela precisava do vídeo do quarto 402. O algoritmo de "otimização de leitos" — o eufemismo que o hospital usava para o Livro-Razão Negro — estava devorando os logs de acesso em tempo real. Ela inseriu a chave na fenda do console principal. O sistema hesitou, processando a intrusão física como um erro de hardware, uma falha de leitura que lhe deu segundos preciosos.
— Onde está o backup da lixeira? — Bia exigiu, a voz firme, embora suas mãos estivessem geladas.
— Se eu abrir, o sistema vai travar o meu ID e apagar meu histórico de acesso — Tiago retrucou, os olhos fixos na porta de aço. — Eles vão saber que fui eu. Eles vão cobrar a dívida, Bia. Você não tem ideia do que eles fazem com quem falha. O conselho não perdoa.
— Se você não abrir, eles vão te descartar de qualquer jeito — ela rebateu, aproximando-se o suficiente para ver o suor escorrendo pela têmpora dele. — Mendes não deixa pontas soltas. Me dê o acesso ou seremos ambos apagados antes do amanhecer.
Tiago soltou um suspiro trêmulo e digitou uma sequência de comandos. A tela piscou, revelando uma pasta oculta: Livro-Razão Negro. O nome era literal. Uma lista de nomes, datas de admissão e horários de óbito. Bia sentiu um frio glacial percorrer sua espinha. Não era negligência; era um cronograma de execuções cirúrgicas, uma planilha de eficiência onde vidas eram subtraídas para equilibrar o orçamento.
Ela localizou o arquivo de vídeo do quarto 402. O download começou, lento, uma barra de progresso que parecia zombar da sua urgência. 40%... 60%... O som de passos pesados ecoou no corredor. Segurança.
— Eles estão aqui — Tiago sibilou, recuando para as sombras.
Bia não se moveu até que a barra atingisse 100%. Ela puxou o drive, o calor do dispositivo queimando sua pele. No momento em que a porta da sala de servidores começou a girar, ela disparou para a saída de emergência, o suor frio colando o jaleco às suas costas.
Minutos depois, escondida no fundo de um armário de suprimentos, ela conectou o drive ao tablet. A imagem era granulada, mas inegável. O quarto 402. O Dr. Arisvaldo Mendes saía do quarto, ajustando as luvas com uma calma que beirava a psicopatia. Ele não parecia um médico; parecia um carrasco conferindo o serviço.
O celular vibrou. Uma notificação. Uma foto de sua filha, Clara, na porta da escola. A mensagem era curta: O tempo é um luxo que você não tem.
Bia guardou o drive. O jogo havia mudado. Ela não estava mais apenas investigando; ela estava em uma corrida contra o próprio sistema que jurara proteger. Ao chegar em seu apartamento, encontrou a porta entreaberta. O interior estava revirado, gavetas arrancadas, papéis espalhados. Nada fora roubado. Era um aviso. O hospital não precisava mais esconder a verdade; eles queriam que ela soubesse que não havia mais para onde correr.