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Chapter 5: Vínculos de Sangue

Bia encontra seu apartamento invadido como forma de intimidação por Mendes. Após obter provas de que o hospital leiloa leitos de UTI para o crime organizado através do 'Livro-Razão Negro', ela percebe que a rede de influência de Mendes é vasta e perigosa. Ela consegue proteger sua filha, mas o cerco se fecha enquanto a contagem regressiva para a limpeza do sistema continua.

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Vínculos de Sangue

A fechadura do meu apartamento cedeu com uma facilidade que fez meu estômago despencar. Eu não tinha esquecido de trancar; eu nunca esquecia. O ar lá dentro estava impregnado com o cheiro metálico de desinfetante hospitalar, uma intrusão impossível em meu santuário. Parei no hall, a mão ainda sobre a maçaneta, o silêncio do ambiente gritando mais alto que qualquer alarme.

As gavetas da cômoda estavam escancaradas, com roupas íntimas reviradas pelo chão como se procurassem por um segredo que eu não guardava ali. Os livros da estante, antes alinhados, jaziam em pilhas caóticas. Tateei o bolso do casaco, onde o pendrive com o vídeo do prontuário 402 pesava como uma sentença. Eles não queriam meus bens. Queriam que eu soubesse que eram capazes de invadir minha vida enquanto eu estava no hospital, lutando contra um sistema que já havia decidido me apagar.

Meu coração martelava contra as costelas quando vi o porta-retratos sobre a mesa de centro. A foto de Clara, minha filha de seis anos, estava virada para baixo. Caminhei até lá, sentindo cada centímetro do assoalho como se fosse um campo minado. Ao levantar a moldura, encontrei um bilhete colado no verso, escrito com a caligrafia elegante e fria de Arisvaldo Mendes: “O tempo de recuperação é curto demais para desperdiçar com a segurança de quem você ama.”

O pânico ameaçou me paralisar, mas o desespero se transformou em algo mais denso: uma raiva fria e calculada. Escondi o drive dentro do forro da cortina do quarto, um local que nenhum invasor casual checaria, e peguei apenas o essencial. Clara não dormiria mais aqui. Liguei para minha tia, inventando uma desculpa sobre um plantão duplo, e a retirei de casa em menos de vinte minutos. Sem avisar ninguém, sem deixar rastros.

Duas horas depois, encontrei Tiago em um café decadente na periferia do hospital. O local cheirava a óleo queimado e desespero. Ele estava sentado no canto mais escuro, as mãos trêmulas escondidas sob a mesa. Ao me ver, ele empurrou um dispositivo de metal fosco através da fórmica arranhada.

— Você não deveria ter voltado, Bia — sussurrou ele, a voz falhando. — O sistema de auditoria disparou um alerta vermelho assim que você acessou o diretório raiz. Mendes sabe que é você. Ele sabe sobre a chave mestra.

— Eu vi o vídeo, Tiago. Vi o que ele fez no 402 — respondi, minha voz cortante. — Não vou parar. O que é o 'Livro-Razão Negro'? Não é apenas uma lista de óbitos, é uma gestão de ativos.

Tiago soltou uma risada amarga. — Ativos? São leitos, Bia. O hospital não está apenas matando pacientes. Eles estão leiloando a vaga de UTI para quem paga a propina mais alta através de uma rede de clínicas conveniadas. O software prioriza a "liberação" de leitos ocupados por quem não tem influência, sacrificando-os para que o hospital mantenha suas contas no azul e seus parceiros no crime satisfeitos.

O relógio interno daquela conspiração martelava em minhas têmporas: 58 horas. O tempo que restava antes que o sistema de limpeza hospitalar deletasse qualquer vestígio de minha carreira e, possivelmente, da minha liberdade. Tiago me entregou um código de acesso temporário, mas seus olhos estavam fixos na porta. Ele sabia que, ao me ajudar, estava assinando sua própria demissão, ou algo pior.

Consegui acesso a um terminal remoto que ele jurara estar fora do radar do hospital. Inseri a chave mestra herdada do meu pai — um artefato de metal pesado que ignorava os bloqueios digitais de nível 1. O sistema 'Sentinela' tentou me expulsar, mas a chave forçou uma fresta no firewall. A interface do 'Livro-Razão Negro' se abriu. Não era um prontuário; era um algoritmo de predação. Ali, sob a aba 'Gestão de Fluxo', vi a lista de pacientes com o status 'Prioridade de Liberação'. O nome do paciente 402 estava lá, marcado em vermelho: 'Paciente Terminado'. Ao lado, a motivação: 'Vaga solicitada para transferência de alto risco'.

Eu não estava apenas investigando um erro médico. Eu estava olhando para o inventário de um cemitério comercial. Enquanto eu baixava a lista, o carro preto que já me seguia desde a saída do terminal apareceu no retrovisor. A perseguição pelas ruas estreitas de São Paulo foi um borrão de adrenalina. Meu celular tocou: Mendes.

— Você está sendo imprudente, Beatriz — a voz dele era aveludada, cirúrgica. — O prontuário 402 é apenas um erro de sistema. Se não parar, a próxima notificação que receber não será um telefonema, mas o aviso de que a escola da Clara foi fechada para uma "inspeção sanitária" inesperada.

Ele não estava apenas me ameaçando; ele estava me desmantelando. O hospital não era apenas um prédio, era uma extensão de um poder que controlava juízes e vidas. Enviei uma cópia criptografada de tudo para um contato de confiança fora do estado. Ao chegar em casa, exausta e com o coração batendo no limite, encontrei a porta entreaberta. O apartamento estava revirado, mas nada de valor havia sido levado. Apenas um aviso, deixado em um porta-retratos virado, de que o relógio não estava apenas correndo contra o hospital, mas contra a minha própria existência.

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