A Máscara de Mendes
O ar condicionado do décimo andar era gelado, mas o suor frio que escorria pela espinha de Bia Rocha era mais cortante. O segurança, um homem de pescoço largo e olhar desprovido de humanidade, a escoltava pelo corredor de mármore. Ele não disse uma palavra, mas a mão pousada sobre o cassetete era uma sentença clara: ela não estava ali para uma reunião de rotina.
Bia sentia o peso do drive USB escondido sob o sutiã. Não era apenas um dispositivo de armazenamento; era o registro de uma execução institucionalizada. Cada passo em direção à porta dupla de mogno do Dr. Arisvaldo Mendes parecia encurtar o prazo de sua própria existência. O sistema de auditoria do hospital já havia sinalizado a brecha. Ela tinha, por estimativa, menos de 60 horas antes que o protocolo de limpeza apagasse não apenas os dados, mas qualquer rastro de sua carreira.
O escritório era um santuário de poder. Mendes estava de costas, observando a metrópole de São Paulo através do vidro blindado.
— A curiosidade é um traço admirável na medicina, Beatriz — ele começou, a voz aveludada, sem se virar. — Mas, na gestão hospitalar, ela é um erro de diagnóstico fatal.
Bia manteve as mãos unidas à frente, escondendo o tremor.
— Não sei do que o senhor está falando, Dr. Mendes.
Ele girou a cadeira. Sobre a mesa, um dossiê aberto exibia fotos de seu pai, um médico cujo nome fora manchado por um escândalo que Bia ainda tentava entender. Ao lado, uma foto de Clara, sua filha, saindo da escola.
— Seu pai permitiu que o sentimentalismo nublasse seu julgamento. O hospital não perdoa falhas. E você, Beatriz, está trilhando o mesmo caminho. Como vai a pequena Clara? A escola dela é um lugar tão tranquilo, não acha? Seria uma tragédia se algo perturbasse aquela rotina.
O estômago de Bia despencou. O reflexo na janela a traiu: ela viu o brilho metálico de uma lente embutida na estante. Estavam sendo gravados. Mendes não apenas a chantageava; ele construía o cenário para sua queda, transformando a investigação em uma armadilha de chantagem emocional.
— Entregue o drive. Esqueça o prontuário 402 — ordenou ele, levantando-se. — Ou a próxima conversa que tivermos não será aqui, mas em um lugar onde ninguém poderá interceder por você, nem pela sua filha.
Bia saiu da sala sob a promessa forçada de 'colaboração'. Ao chegar à sua estação, seu login foi revogado. O sistema de auditoria disparou um alerta vermelho: Acesso negado. Protocolo de expurgo iniciado.
Ela interceptou Tiago no corredor de serviço. O técnico estava pálido, os olhos fixos no chão.
— Eu não posso, Bia! Eles já sabem! A dívida que tenho com o conselho... se eu te ajudar, eles não vão apenas me demitir, vão me destruir.
Bia não esperou. Usando a chave mestra herdada do pai — um artefato que o hospital acreditava ter sido destruído — ela contornou o bloqueio. Ao forçar a entrada no servidor central, a verdade explodiu em sua tela: o 'Livro-Razão Negro' não era um arquivo de prontuários, mas um software de monitoramento de pacientes selecionados para 'otimização de leitos'.
Com o sistema emitindo um alarme silencioso que ela sabia que Mendes já estava rastreando, Bia baixou um último fragmento de vídeo. Escondida na cabine do banheiro, ela conectou o drive ao tablet. A imagem granulada surgiu: Mendes saindo do quarto do paciente 402, checando o relógio com uma calma predatória, exatamente dois minutos antes da falência cardíaca ser declarada.
Ela olhou para o relógio digital na parede do corredor. Restavam 58 horas. O jogo mudara de investigação para sobrevivência. A prova estava em suas mãos, mas o custo da verdade era a vida de quem ela mais amava.