Custo de Acesso
O ar no subsolo do Hospital Santa Cecília não circulava; era uma massa estagnada de ozônio e poeira de servidor. Bia Rocha sentia o peso do crachá contra o peito como se fosse uma chapa de chumbo. No monitor à sua frente, o cursor piscava com a cadência de um batimento cardíaco moribundo. 71 horas e 42 minutos. O tempo que restava antes que o protocolo 'Cão de Guarda' apagasse permanentemente os rastros do prontuário 402.
Tiago estava encolhido sob a mesa de metal, os dedos voando sobre um teclado mecânico. Ele não olhou para ela. O suor escorria por suas têmporas, manchando a gola do uniforme cinza.
— Você não entende, Bia — ele sibilou, a voz trêmula. — O sistema não apenas deleta o arquivo. Ele marca o usuário. O alerta de acesso não autorizado já subiu para o nível de diretoria. O Dr. Mendes não vai te chamar para uma conversa. Ele vai te apagar.
Bia jogou o drive de armazenamento sobre a mesa. O som metálico foi um tiro no silêncio da sala de servidores.
— O 402 não é um erro médico. É uma execução por cloreto de potássio. Se eu não descriptografar isso, a morte daquele paciente vira apenas mais uma linha de estatística enterrada no servidor.
Tiago parou. Ele olhou para o drive, depois para Bia, seus olhos injetados de pavor.
— Eu tenho uma dívida com o conselho, Bia. Eles pagaram o tratamento da minha mãe. Se eu tocar nesse arquivo, eles não vão apenas me demitir. Eles vão me destruir. Por que você se importa tanto? É só um prontuário.
— Porque meu pai morreu tentando limpar o nome da nossa família neste mesmo hospital — ela respondeu, a voz cortante. — E porque eu não vou ser a próxima a carregar o peso desse silêncio.
Bia inclinou-se, invadindo o espaço pessoal dele.
— Eu tenho a senha mestra que o RH esqueceu de revogar quando meu pai saiu. Eu posso apagar sua dívida do sistema central. Eu te dou a sua liberdade, você me dá a prova.
Tiago hesitou. O medo de Mendes lutava contra a ânsia de escapar da coleira hospitalar. Ele puxou o drive, conectando-o ao terminal. A tela brilhou em um azul gélido, revelando uma pasta oculta: Livro-Razão Negro. Não era apenas um registro; era uma planilha de custos de vidas humanas, uma contabilidade de eliminação de pacientes inconvenientes.
— Eles já sabem, Bia — Tiago murmurou, o rosto iluminado pela luz fria da tela. — O sistema de auditoria rastreou seu acesso ao 402. Eles estão vindo.
Bia não esperou. Ela recolheu o drive e subiu as escadas de serviço, o coração martelando contra as costelas. Ao emergir no corredor da ala administrativa, o silêncio era absoluto, interrompido apenas pelo zumbido das luzes fluorescentes. Ela dobrou a esquina e parou.
O Dr. Arisvaldo Mendes estava parado diante de uma janela, observando o movimento da cidade lá embaixo. Ele não se virou, mas sua voz ecoou pelo corredor, aveludada e letal.
— Beatriz. Sempre tão diligente com os arquivos mortos.
Bia travou. O drive no bolso do jaleco parecia uma brasa viva.
— Doutor Mendes. Apenas verificando inconsistências no sistema.
Mendes virou-se lentamente. Seu sorriso era uma máscara de benevolência que não chegava aos olhos. Ele deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles.
— O sistema é perfeito, Beatriz. Não há inconsistências, apenas escolhas. Como a escolha de sua filha, a pequena Sofia, de continuar na escola particular que o hospital patrocina. Seria uma tragédia se uma instabilidade burocrática interrompesse o futuro dela, não acha?
O sangue de Bia gelou. O hospital não estava apenas protegendo o prontuário; eles estavam usando sua vida como moeda de troca. Ela forçou um aceno, sentindo o peso da armadilha se fechar. O relógio no corredor marcava 71 horas. A caçada tinha começado.