O Preço da Verdade
O ar no estacionamento subterrâneo do Hospital Santa Fé tinha gosto de concreto úmido e óleo de motor, um contraste asfixiante com a assepsia dos andares superiores. Beatriz pressionou o Livro-Razão Negro contra o peito, sentindo as arestas das páginas encadernadas perfurarem sua palma. O relógio digital em seu pulso, sincronizado com a rede interna, piscava em um tom carmesim: 11:59:00 para a purga total dos dados. Ela não tinha mais tempo para a cautela.
O som de botas táticas ecoou contra as colunas de sustentação. Três seguranças, com os rostos iluminados pelas luzes estroboscópicas de advertência do Nível 4, fechavam o cerco. Não eram funcionários comuns; eram a força de contenção do Dr. Arnaldo, homens treinados para garantir que segredos não chegassem à luz do dia. Beatriz correu em direção à saída principal, mas o estrondo metálico das barreiras automáticas baixando ecoou como uma sentença de morte. O sistema de segurança, alertado por sua invasão na sala de servidores, havia selado o prédio.
— Beatriz, entregue o material. Você sabe que não vai sair daqui — a voz de um dos seguranças era um rosnado desprovido de qualquer humanidade.
Beatriz ignorou a ordem, seus olhos varrendo a penumbra. Ela sacou o cartão de acesso de alto nível que arrancara de Mendes, o brilho fosforescente do plástico sendo sua última esperança de desviar a rota. Em um movimento desesperado, ela deslizou o cartão em um terminal de manutenção oculto atrás de um painel elétrico. O sistema chiou, processando a autorização de um administrador que já não tinha controle total. A grade de ventilação cedeu com um estalo metálico. Ela se arrastou para dentro, o cheiro de poeira e metal velho invadindo seus pulmões enquanto as botas dos seguranças passavam a poucos centímetros de sua cabeça.
O duto de ventilação era um labirinto claustrofóbico. Rastejando sobre as entranhas mecânicas do hospital, Beatriz encontrou uma grade de inspeção que dava vista para o bloco cirúrgico. O relógio em seu pulso brilhava em vermelho: 06:00:00. Abaixo, Lúcia estava imobilizada em uma mesa cirúrgica, cercada por técnicos que não pertenciam ao corpo médico. Eles não a preparavam para curar, mas para apagar. Um sensor neural era fixado à têmpora de Lúcia. O hospital estava realizando uma lobotomia seletiva para garantir que ela nunca contasse o que vira sobre o leilão de dados genéticos. A raiva de Beatriz, antes fria, tornou-se uma brasa viva. Ela não podia mais ser apenas uma observadora; a vida de Lúcia era o custo final de sua investigação.
Beatriz desceu até o Arquivo Morto com a precisão de um predador. Encontrou o técnico responsável pelo procedimento de Lúcia e, usando a chantagem como arma, forçou a abertura da contenção. O técnico, pálido e trêmulo, cedeu sob a ameaça de ser expurgado junto com ela. Lúcia foi libertada, mas o alarme de Nível 4 ecoou pelos corredores, um som gutural que sinalizava que o hospital sabia exatamente onde estavam.
— Corra — Beatriz ordenou, puxando Lúcia pelos corredores de serviço. Elas chegaram à sala de servidores auxiliar, o último bastião de conectividade externa. Beatriz conectou o drive de criptografia, mas a tela piscou, exibindo uma interface de bloqueio absoluto. O sistema de segurança havia isolado a rede. A barra de progresso de upload travou em 15%. O relógio marcava 05:59:00. Elas estavam encurraladas. Beatriz olhou para o monitor, vendo a contagem regressiva para a purga total, enquanto as trancas da porta da sala de servidores começavam a ser forçadas pelo lado de fora. A verdade estava em suas mãos, mas o hospital estava prestes a apagar a existência de ambas junto com ela.