Contagem Final
O ar na sala de servidores do Santa Fé tornou-se rarefeito, um aviso clínico de que o sistema de Nível 4 havia iniciado a purga de oxigênio. Beatriz sentiu a pressão nos ouvidos, um zumbido metálico que competia com o pulsar da luz vermelha no painel central. Ao seu lado, Lúcia estava encolhida contra a fileira de racks, os olhos vidrados, a respiração curta e arrítmica — o trauma da tentativa de lobotomia ainda a mantinha em um estado de quase paralisia.
— Lúcia, olhe para mim — a voz de Beatriz saiu rouca, forçada pela escassez de oxigênio. — Se não abrirmos essa conexão agora, o sistema vai apagar tudo. Não apenas os dados, mas nós.
A tela do terminal exibia uma mensagem gélida: ACESSO NEGADO. AUDITORIA DE INTEGRIDADE EM CURSO. TEMPO PARA PURGA: 05:59:00. Beatriz sabia que o tempo era uma ilusão contábil do hospital. A purga de ar era real e imediata. Ela tateou o bolso, sentindo o peso do 'Livro-Razão Negro' e do drive de provas. Cada segundo ali custava a oxigenação cerebral de Lúcia e a sua própria capacidade de raciocínio. O sistema não estava apenas bloqueando o sinal de rede externa; ele rastreava o calor corporal delas através dos sensores de presença, ajustando a temperatura da sala para induzir a inconsciência antes da asfixia total.
Beatriz conectou o drive a uma porta de serviço analógica, ignorando o aviso de erro. Era uma linha de emergência obsoleta, escondida sob a blindagem da rede principal. Enquanto os dados começavam a subir em um fluxo lento e instável, o som de botas táticas ecoou no corredor do subsolo.
O Dr. Arnaldo surgiu no monitor de segurança. Ele caminhava com a calma de quem pavimentou o próprio solo com os prontuários alterados de centenas de famílias. Parou diante da câmera, ajustando o punho da camisa com um gesto aristocrático que escondia o sangue nas mãos. Atrás dele, dois seguranças armados seguravam um aríete pneumático.
— Beatriz, seja razoável — a voz de Arnaldo reverberou pelos alto-falantes da sala, fria e desprovida de qualquer emoção humana. — Você está tentando expor um sistema que sustenta a própria fé desta cidade. O Bispo não é apenas um patrono; ele é o acionista majoritário da nossa sobrevivência. Se você continuar, não haverá apenas um óbito para encobrir. Haverá dois.
Beatriz sentiu o peso da chantagem. Ela sabia que Mendes, o conselheiro, não a protegeria mais. Ela precisava de uma distração. Com as mãos trêmulas, ela digitou um comando de override, enviando uma notificação de 'vazamento de dados genéticos' diretamente para o celular de todos os membros do conselho hospitalar, incluindo o Bispo. O caos seria sua única saída.
— Eles estão vindo, Beatriz! — Lúcia gritou, o pânico rompendo sua paralisia enquanto o primeiro impacto do aríete fez a porta de aço estremecer.
Upload: 82%.
O estrondo foi ensurdecedor. A tranca cedeu um centímetro, deixando uma fresta de luz do corredor invadir o ambiente saturado de ozônio. Beatriz ignorou o chamado de Arnaldo e a dor em seus pulmões. Ela precisava que a verdade saísse, custasse o que custasse. O relógio no canto da tela marcava 10 minutos para a destruição total.
Upload: 94%.
Outro estrondo. A estrutura da porta lascou, e a fumaça de um curto-circuito começou a subir. Beatriz golpeou o teclado, tentando forçar o buffer.
Upload: 99%.
A barra de progresso travou, o cursor piscando com um sarcasmo digital impiedoso. O ar na sala estava quase irrespirável. A porta cedeu mais, revelando o rosto impassível de Arnaldo do outro lado, pronto para encerrar a linhagem de segredos que Beatriz teimava em desenterrar. O upload estava parado, a rede externa bloqueada por um firewall de última geração que exigia uma chave que ela não possuía. O silêncio da sala era cortado apenas pelo zumbido dos ventiladores e pelo som metálico dos chutes contra a blindagem. O tempo estava acabando.