Novel

Chapter 8: A Queda do Relógio

Beatriz descobre que Lúcia foi transferida para o Arquivo Morto no subsolo para uma 'limpeza' biológica. Ela consegue extrair o 'Livro-Razão Negro' do escritório de Arnaldo, mas é encurralada no estacionamento pelos capangas do hospital com 12 horas restantes para a purga total.

Release unitFull access availablePortuguese / Português
Full chapter open Full chapter access is active.

A Queda do Relógio

O quarto 304 cheirava a ozônio e desinfetante hospitalar, um vazio clínico que gritava mais alto que qualquer alarme. A cama de Lúcia estava esticada, os lençóis sem uma única dobra, como se ela nunca tivesse existido ali. O monitor cardíaco, antes o compasso da agonia daquela mulher, exibia uma tela preta, fria, refletindo o rosto pálido de Beatriz. Ela correu para o terminal de enfermagem. A tela piscava um aviso em letras vermelhas: Acesso Negado – Auditoria de Nível 4 em curso.

O sistema não estava apenas bloqueando o acesso; estava apagando a existência da paciente. Beatriz sentiu o suor frio escorrer pela espinha. No chão, entre o pé da cama e o rodapé, brilhou um pedaço de plástico: a pulseira de identificação de Lúcia. Ao pegá-la, o código alfanumérico gravado era uma sentença: SUB-B-77-BIOPIRATARIA. Não era uma transferência; era um protocolo de descarte para o subsolo, onde os corpos e os dados genéticos eram processados como commodities de luxo para o mercado internacional.

Beatriz não teve tempo para o luto. Ela se moveu para o corredor de serviço, onde a penumbra escondia o movimento dos seguranças. A silhueta de Mendes emergiu de trás de um carrinho de suprimentos. Ele parecia ter envelhecido dez anos em dez minutos.

— Arnaldo sabe, Beatriz — sibilou ele, sem olhar nos olhos dela. — Sua margem de manobra acabou. Eles iniciaram a purga total. Doze horas. É o que resta antes que o servidor limpe todos os vestígios da sua presença e daquela mulher.

Beatriz sacou o dispositivo com a cópia do vídeo do homicídio. A imagem granulada de Arnaldo desligando o suporte de vida do magnata parecia uma arma apontada para a cabeça do conselheiro.

— A purga não termina enquanto eu estiver viva com isso na mão — ela respondeu, a voz firme, apesar da trepidação em suas mãos. — Onde está Lúcia?

— Arquivo Morto. Subsolo. O bispo autorizou como 'doação de espólio'. Se você for vista lá embaixo, não haverá julgamento. O Nível 4 já disparou o alerta de expurgo contra você.

Beatriz não esperou. Usando o cartão de acesso que arrancou das mãos de Mendes, ela infiltrou-se no escritório de Arnaldo durante a gala hospitalar. O ambiente era um mausoléu de poder. Ela inseriu o drive no terminal central. A tela inundou-se com barras de progresso vermelhas: AUDITORIA DE INTEGRIDADE EM CURSO. O computador apitou, uma nota aguda que parecia um grito de guerra. Ela forçou a extração do 'Livro-Razão Negro'. O arquivo desceu: nomes de pacientes falecidos cruzados com códigos de seguradoras estrangeiras. O nome de Lúcia estava lá, marcado para a próxima rodada de extração biológica. O relógio no canto da tela piscava: 12:00:00.

Beatriz correu para o estacionamento, o ar noturno com um gosto metálico. Ela apertou o drive contra a palma da mão, sentindo a borda plástica perfurar sua pele. O silêncio do pátio era uma mentira; o zumbido das câmeras de vigilância era uma contagem regressiva constante. Ela caminhou em direção ao seu carro, mas parou quando os faróis de um SUV preto cortaram a escuridão, bloqueando a saída. Outro veículo, um sedã administrativo, encostou silenciosamente atrás dela. Beatriz recuou, suas costas colidindo com a grade metálica. Não eram seguranças comuns. Eram os cães de guarda de Arnaldo. A prova estava em sua mão, mas a saída estava bloqueada. A contagem regressiva, refletida no visor de seu celular, marcava 11 horas e 59 minutos. Ela estava encurralada.

Member Access

Unlock the full catalog

Free preview gets people in. Membership keeps the story moving.

  • Monthly and yearly membership
  • Comic pages, novels, and screen catalog
  • Resume progress and keep favorites synced