Pistas de Sangue
O ar nos níveis inferiores do Hospital Santa Fé não era apenas frio; era estéril, carregado com o cheiro de ozônio e desinfetante vencido. Beatriz prensou as costas contra a parede de concreto, sentindo a vibração dos servidores através da alvenaria. A menos de dez metros, o conselheiro Mendes tentava controlar a respiração, o rosto pálido iluminado apenas pelo brilho intermitente de um painel de status.
— Você não entende, Beatriz — sussurrou ele, a voz falhando como um rádio fora de sintonia. — O Nível 4 não é apenas uma senha. É um predador. O log de entrada acusou sua tentativa de acesso remoto. Eles já bloquearam suas credenciais. Você é um fantasma no sistema, e fantasmas são expurgados.
Beatriz não tinha tempo para o pavor dele. Faltavam 48 horas para que o protocolo de limpeza apagasse permanentemente o prontuário do magnata. O Dr. Arnaldo não estava apenas escondendo um erro; ele estava reescrevendo a história do hospital para proteger a fundação e o bispo. Ela segurou o celular, onde a prova de suborno que incriminava Mendes brilhava na tela.
— O cartão, Mendes. Agora — ela exigiu, o tom desprovido da empatia que costumava usar nas reuniões de conselho. — Você prefere ser demitido por incompetência ou ser preso por cumplicidade?
Ele entregou o cartão de manutenção, um plástico cinza com um chip dourado.
— O Nível 4 disparou um alerta silencioso — avisou ele, a voz um fio de desespero. — Assim que você usar isso, as portas da ala técnica vão travar. Você estará presa lá dentro.
Beatriz não respondeu. Ela correu para a escadaria de serviço, seus passos ecoando no metal como um farol para a segurança. Ao chegar ao subsolo, o ambiente era um labirinto de dutos. Cada terminal que ela passava emitia um pulso de monitoramento. Um rádio chiou no corredor: “Anomalia de rede na ala 4. Bloqueiem as saídas.”
Ela se colou contra uma tubulação de oxigênio. Dois seguranças passaram, as lanternas varrendo as sombras. Beatriz disparou o extintor de incêndio na parede oposta. Enquanto eles tossiam no pó químico, ela inseriu o cartão no leitor biométrico. A luz mudou de vermelho para âmbar: acesso concedido.
Dentro da sala, o zumbido das máquinas era um lamento constante. O visor exibia: 47:12:05. Beatriz conectou o drive. A barra de progresso do download do log de câmeras engasgou nos 42%. O sistema tentava sobrepor os arquivos com lixo digital.
— Vamos, droga — ela sibilou, os dedos tamborilando na mesa metálica.
Acesso Não Autorizado - Protocolo de Expurgo em Execução. A barra travou em 88%. Passos pesados ecoaram no corredor. Quando a barra atingiu 100%, ela puxou o drive e correu para a saída de emergência.
Ao girar o trinco, uma silhueta bloqueou a luz: Dr. Arnaldo, ladeado por dois seguranças. Ele parecia um executor em seu ambiente natural.
— Você tem um talento notável para o desperdício, Beatriz — disse Arnaldo. — Entregue o drive, e eu garanto que sua licença médica permaneça intacta. O hospital precisa de pessoas que saibam quando olhar para o lado.
Beatriz sentiu o suor frio. Ela conectou o drive em um tablet e girou a tela. O vídeo mostrava o Dr. Arnaldo, na calada da noite, desligando pessoalmente o suporte de vida do paciente enquanto verificava o relógio, como se encerrasse um turno administrativo. O silêncio no corredor foi absoluto, interrompido apenas pelo zumbido do sistema de Nível 4, que começou a emitir alertas de erro em todas as telas ao processar os dados vazados.
Beatriz empurrou um dos seguranças e correu. Ela estava fora do hospital, mas ao conectar o drive ao celular, uma nova pasta abriu: uma lista de transações internacionais vendendo dados genéticos de pacientes falecidos como commodities. O jogo tinha mudado. Ela não investigava apenas um óbito; ela estava diante de um esquema global.