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Chapter 5: O Custo da Lealdade

Beatriz evita sua demissão imediata ao chantagear o conselheiro Mendes, mas o custo é a revogação total de seus acessos digitais. Agora, sob vigilância ativa do sistema de Nível 4 e com 48 horas restantes, ela percebe que a única forma de obter a prova final contra Arnaldo é invadir fisicamente a sala de servidores.

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O Custo da Lealdade

O Hospital Santa Fé não era apenas um edifício de concreto e vidro; era um organismo que acabara de identificar um corpo estranho. Beatriz atravessou as portas giratórias com o passo firme de quem ainda possuía uma arma, mas ao tocar o leitor de crachá em sua estação de trabalho, o silêncio foi a única resposta. Em vez da sua planilha de custos, o monitor exibia um fundo negro onde uma luz âmbar pulsava como um alerta de infarto: Auditoria de Integridade Nível 4.

O sistema não estava apenas bloqueado; ele estava devorando a si mesmo, apagando qualquer rastro de sua identidade funcional. Beatriz sentiu o suor frio brotar na nuca. O bispo tinha o livro-razão, e Arnaldo tinha o controle da rede. Ela estava cega. Seus dedos, treinados para navegar por labirintos de dados, tremeram ao tentar o atalho de emergência que ela mesma ajudara a documentar meses atrás. O cursor piscou, desdenhoso.

— Tente outra vez, Beatriz. Vai ser mais rápido se você não resistir — a voz de Arnaldo soou atrás dela, carregada de uma cortesia que feria mais que um grito. Ele não estava sozinho; dois seguranças da fundação, homens de ombros largos e olhares vazios, flanqueavam a entrada. — O conselho de ética está esperando. A sua demissão por justa causa é apenas uma formalidade burocrática.

Minutos depois, na sala de reuniões, o ar parecia rarefeito. O cronômetro do sistema, projetado em um monitor de parede, saltava: 47:58:12. O tempo era o único recurso que lhe restava, e cada segundo custava caro. Arnaldo deslizou o termo de rescisão sobre a mesa de vidro.

— Assine. É a saída mais digna para alguém com o seu histórico — disse ele, a voz polida como mármore frio.

Beatriz não tocou no documento. Ela visualizou a cena na capela: o bispo recebendo o livro-razão das mãos de Arnaldo. Ela não tinha a prova digital, mas tinha a fraqueza de Mendes, um dos conselheiros à mesa.

— O senhor Mendes sabe que o hospital financiou o tratamento oncológico de sua esposa com o mesmo fundo usado para lavar dívidas de pacientes falecidos? — A voz de Beatriz cortou o silêncio clínico. Ela observou a cor drenar do rosto de Mendes. — Tenho o rastro da transação. Se eu for demitida, o arquivo não será deletado. Ele será enviado para o Ministério Público.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Mendes trocou um olhar aterrorizado com Arnaldo. O conselho cedeu, mas a vitória teve um preço amargo. Arnaldo, percebendo a manobra, inclinou-se para frente, um sorriso cruel curvando seus lábios.

— Você fica, Beatriz. Mas, por motivos de segurança, todos os seus privilégios de acesso ao servidor foram revogados permanentemente. Você é uma funcionária sem acesso. Uma cega em um labirinto que agora sabe o seu nome.

Beatriz saiu da sala com a cabeça erguida, mas o estômago revirado. Ela correu para o saguão, tentando um terminal público, uma relíquia de plástico perto da saída de emergência. Precisava de um único log, um fragmento de sessão. Ao inserir o cartão, o leitor hesitou, uma pausa calculada. O algoritmo de Nível 4 não a bloqueou; ele a mapeou. Cada tecla pressionada era catalogada. A tela exibiu: Acesso não autorizado. Auditoria de integridade em curso.

Ela correu para o banheiro do setor de emergência, trancando-se sob o cheiro de desinfetante vencido. O reflexo no espelho mostrava uma mulher caçada. Ela tateou o bolso do jaleco, encontrando um papel amassado: um código de acesso de emergência antigo, copiado na primeira semana de trabalho, quando ainda acreditava na cura. Beatriz percebeu a verdade: o sistema não era uma parede, era um caçador. Ela tinha 48 horas, mas agora estava tecnicamente cega, isolada em uma fortaleza que a vigiava em tempo real. Sua única saída era invadir a sala de servidores físicos, onde o sistema de segurança, em sua arrogância, mantinha o núcleo da rede. E, no fundo daquela memória fragmentada, um vídeo que ela ainda não vira começou a rodar em um loop mental: Arnaldo, desligando pessoalmente o suporte de vida de um paciente. A prova final estava lá, enterrada no hardware, esperando por ela.

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