A Máscara de Fé
O ar no subsolo do Hospital Santa Fé era uma mistura sufocante de ozônio e desinfetante vencido. Beatriz prensou as costas contra a carcaça fria de um servidor, o peito subindo e descendo em espasmos controlados. O monitor à sua frente exibia a contagem regressiva em um vermelho que parecia sangrar na tela: 59:42:12. O sistema de Nível 4 não estava apenas bloqueando acessos; estava caçando-a. Cada batida do seu coração parecia um sinal de localização para os seguranças que vasculhavam os corredores de serviço.
Ela deslizou o celular pelo terminal, forçando a entrada com o código de acesso de um médico que, segundo os registros, morrera meses atrás. Era uma aposta desesperada. Se o código fosse uma armadilha, ela seria isolada ali mesmo, enterrada viva sob toneladas de concreto e corrupção. A tela piscou, o sistema travou por um milissegundo agonizante e, então, liberou a saída de serviço. Beatriz não esperou. Correu, as solas dos sapatos batendo no piso metálico como disparos, até alcançar a rampa de carga que dava para o estacionamento dos fundos. Ao cruzar a porta, sentiu o zumbido de um aviso sonoro: seu cartão de acesso fora desativado permanentemente. Ela estava fora, mas agora, estava cega.
O ar noturno da cidade de peregrinação não trouxe alívio. O Santuário de Nossa Senhora da Penha brilhava no topo da colina, uma joia de ouro e pedra cercada por uma multidão que mal sabia que o hospital onde buscavam cura era o mesmo que financiava o silêncio de suas tragédias. Beatriz encontrou Lúcia na terceira fileira da nave, os ombros magros curvados sob o peso de um xale surrado. O pavor era palpável, um odor de cera derretida e medo antigo.
— Você não deveria estar aqui — Lúcia sibilou, sem desviar os olhos do altar. A voz era um fio de navalha. — Eles me avisaram, Beatriz. Disseram que se você continuasse cutucando, a dívida que perdoaram dos meus filhos voltaria a cobrar juros. Juros de sangue.
Beatriz puxou-a para o canto sombrio atrás de uma coluna. — Eu tenho a prova, Lúcia. O prontuário foi alterado para ocultar o experimento. Não foi um acidente, foi um corte orçamentário deliberado. O hospital sacrifica vidas para manter o balanço positivo.
Lúcia soltou uma risada seca, desprovida de qualquer humor. — Você acha que o hospital é o topo da cadeia? O bispo esteve aqui ontem. Ele abençoou as novas alas de oncologia com o dinheiro que tiraram do meu marido. A fé aqui é a última camada de tinta sobre um muro de podridão. Se você falar, eles não vão apenas te demitir. Eles vão apagar sua existência.
Beatriz sentiu o peso do prontuário no bolso do jaleco. A revelação atingiu-a como um golpe físico: a conspiração não era apenas administrativa, era sistêmica, selada pela autoridade que a cidade inteira adorava. Ela precisava do livro-razão físico, a prova final que o servidor digital não alcançava, antes que a purga de 60 horas fosse concluída.
De volta ao hospital, o saguão principal parecia uma catedral de frieza clínica. Beatriz tentou passar despercebida, mas o movimento no centro do lobby a paralisou. As portas de vidro automáticas se abriram, e o Dr. Arnaldo entrou. Ele não caminhava com sua habitual arrogância; ele se movia com a submissão de um servo. Ao seu lado, o Bispo, em trajes que brilhavam sob as luzes cirúrgicas, caminhava como se fosse o dono do solo que pisava.
Beatriz buscou abrigo atrás de um pilar de mármore. O silêncio no saguão era absoluto. Arnaldo curvou-se, um ângulo de genuflexão que confirmava a hierarquia real daquela instituição.
— A fundação agradece sua presença, Eminência — a voz de Arnaldo, geralmente cortante, era agora um sussurro de um subordinado. — O senhor é o pilar que mantém nossa missão de cura intacta.
O Bispo apenas assentiu, um gesto breve, autoritário. Beatriz viu o momento exato em que Arnaldo entregou uma pasta — o livro-razão — para um dos assistentes do Bispo. O encobrimento não era apenas um crime médico; era um sacramento. Quando o Bispo tocou o ombro de Arnaldo, Beatriz soube que não havia mais canais de denúncia. A contagem regressiva continuava a correr, mas agora o tempo não era seu único inimigo. A própria divindade da cidade estava protegendo o açougue.