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Chapter 9: A Verdade à Venda

Beatriz tenta expor o hospital através do jornalista Sérgio, apenas para descobrir que ele foi comprado pela diretoria. Isolada e procurada, ela consegue extrair os logs da linha 42, revelando uma série de experimentos humanos. O Dr. Arnaldo a encurrala em um café, oferecendo um suborno para que ela desapareça antes da auditoria, que ocorrerá em 43 horas.

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A Verdade à Venda

A chuva de Vespera não lavava a lama; ela a transformava em uma pasta cinzenta que grudava nos sapatos de Beatriz como uma sentença. Faltavam quarenta e cinco horas para a auditoria externa. O tempo não era apenas um número; era um peso físico, uma pressão constante na base de seu crânio que a impedia de respirar fundo.

Escondida sob o capuz encharcado, ela observava a entrada lateral do Santuário. O brilho dourado da basílica, imponente e intocável, contrastava com a escuridão dos becos onde ela se arrastava. Ali, a luz servia apenas para cegar os fiéis enquanto o poder local operava nas sombras. Beatriz ajustou a mochila. O peso do pendrive — contendo os logs financeiros que ligavam o Hospital Santa Fé ao altar sob o qual ela estava — parecia queimar suas costas.

Ela precisava de um megafone. Precisava de Sérgio.

Beatriz encontrou um orelhão em uma galeria comercial, uma relíquia de metal oxidado que ainda emitia sinal. Suas mãos tremiam, não pelo frio, mas pela adrenalina de quem sabe que cada segundo é uma moeda de troca. Ela discou o número do jornalista. O toque soou como um martelo batendo em um caixão.

— Sérgio? É a Beatriz. Tenho as provas. A lavagem de verbas, o desvio da fundação, o caso 402. Preciso que você publique isso agora.

O silêncio do outro lado foi cirúrgico. Quando Sérgio respondeu, sua voz estava desprovida de qualquer calor humano.

— Beatriz, você é uma fugitiva. O hospital registrou um boletim por sabotagem. Você não deveria estar ligando.

— Sabotagem? Eles deletaram prontuários! A linha 42 é uma prova de homicídio institucional. Você me prometeu que a verdade importava.

— A verdade não paga a folha de pagamento da redação, Beatriz. O Santa Fé é o nosso maior anunciante. Minha carreira depende dessa conta. Apague o que você tem e desapareça. Se você tentar algo, não será apenas o hospital atrás de você.

A linha morreu. O som do tom de discagem era o de uma porta se fechando definitivamente. Ela estava isolada. O sistema não apenas ocultava a verdade; ele a tinha comprado.

Beatriz entrou em uma lan house próxima, o ambiente cheirava a ozônio e desespero. O relógio digital no canto da tela marcava 44 horas. Ela inseriu o pendrive. Seus dedos, treinados na frieza da auditoria, moveram-se com uma urgência febril. O sistema de segurança do hospital, que ela mesma ajudara a blindar, agora era um cão de guarda rosnando em sua direção.

— Vamos, droga — sibilou, enquanto o cursor avançava pelo banco de dados.

Uma janela de alerta surgiu em vermelho sangue: "ACESSO NÃO AUTORIZADO – RASTREAMENTO ATIVO". Ela ignorou o aviso, forçando o download do log da linha 42. O arquivo se abriu: uma lista de nomes, dezenas de pacientes, vítimas de um experimento de descarte humano. O hospital não era um centro de cura; era um matadouro de luxo.

Ao sair, a rua parecia ter encolhido. Dois seguranças a aguardavam na saída do café, não com algemas, mas com uma postura de quem detém o controle total. O Dr. Arnaldo Siqueira surgiu entre eles, impecável, como se estivesse em uma reunião de diretoria.

Ele se sentou à mesa, deslizando uma maleta de couro sobre o tampo de fórmica. O clique das travas metálicas ecoou como um disparo.

— O café aqui é amargo, não é, Beatriz? — Arnaldo sorriu, um gesto que não alcançava a frieza de seus olhos. — Você tentou o Sérgio. Ele é um bom rapaz, mas tem contas a pagar. Você está lidando com forças maiores que sua consciência.

Ele empurrou a maleta em direção a ela.

— Aqui dentro há o suficiente para você recomeçar em qualquer lugar do mundo. Um passaporte, dinheiro, uma vida nova. A auditoria começa em 43 horas. Se essa maleta estiver fechada à meia-noite, você será apenas uma criminosa esquecida. Se estiver aberta, você será apenas um nome a menos nos nossos registros. Escolha com sabedoria.

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