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Chapter 8: O Relógio de Areia

Beatriz foge do hospital após ser incriminada publicamente por sabotagem. Ela se infiltra em uma procissão religiosa para chegar ao Santuário, onde o servidor central está localizado. Ao tentar contatar um jornalista para expor a fraude, descobre que ele foi comprado pelo hospital, isolando-a completamente antes da auditoria.

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O Relógio de Areia

O ar no subsolo do Hospital Santa Fé tinha gosto de metal e ozônio. Beatriz Viana pressionou o pendrive contra a costela, sentindo o relevo do metal através da blusa como uma cicatriz. Faltavam exatamente 45 horas e 30 minutos para a auditoria externa. O tempo não era mais uma medida abstrata; era um predador que a encurralava.

Ela evitou os elevadores. O sistema de vigilância, agora sob controle direto de Arnaldo, não era apenas um circuito; era uma rede inteligente que antecipava seus passos. Ao chegar à bifurcação do setor técnico, parou diante de um monitor. A imagem era nítida: as portas de segurança do corredor principal haviam sido lacradas remotamente. O hospital a conduzia como um rato em um labirinto de concreto.

Beatriz forçou a grade de um duto de ventilação com a chave mestra subtraída da TI. A pele de seus braços raspou contra o metal, mas ela não sentiu a dor. O som de botas pesadas ecoava no corredor atrás dela. Ela emergiu no beco dos fundos, mas o alívio durou o tempo de uma respiração. Uma viatura da polícia local estava parada na saída, com os faróis apagados, vigiando o nada. Não era uma patrulha; era uma sentinela.

Escondida atrás de caçambas de lixo hospitalar, ela viu o brilho de seu celular revelar o cerco. O âncora do telejornal local, um homem que ela vira rindo com Arnaldo em jantares de gala, falava com uma gravidade ensaiada. “Investigadora foragida, Beatriz Viana, acusada de sabotagem e desvio de dados sensíveis da ala oncológica.” A foto de seu crachá estampava a tela: Ameaça à Saúde Pública. A difamação era cirúrgica. Arnaldo não queria apenas prendê-la; ele estava transformando a população devota em seus carcereiros voluntários. Cada segundo de exposição pública era um prego no caixão de sua credibilidade.

Beatriz cobriu o rosto com um lenço escuro e se infiltrou em uma procissão religiosa que subia a colina em direção ao Santuário. O incenso era sufocante, um contraste profano com o ambiente estéril de onde fugira. Seus olhos varriam o perímetro. Três homens parados perto da fonte central não eram romeiros; a postura rígida e os rádios disfarçados de rosários os entregavam. Eram seguranças do hospital. O enfermeiro-chefe, um dos homens de confiança de Arnaldo, comparava o rosto de cada fiel com a foto de Beatriz em seu celular. Ela baixou a cabeça, sentindo o peso do servidor central sob seus pés, enterrado sob o altar. O Santuário era sua única chance, mas era também a fortaleza do inimigo.

Na periferia da praça, ela encontrou um orelhão. Discou o número de Sérgio, o jornalista que era seu último fio de esperança. O sinal de chamada ecoou no vazio.

— Beatriz? — A voz dele soou metálica e fria. — Você não deveria estar ligando.

— Sérgio, eu tenho os logs. A lavagem de dinheiro, a conexão entre o hospital e o subsolo do Santuário. O hospital está desviando verbas para esconder o Beta-S. Publique isso agora.

Um silêncio pesado se seguiu. Beatriz viu uma viatura da polícia dobrar a esquina, as luzes girando lentamente, cortando a escuridão da praça.

— O hospital já cobriu o meu silêncio, Beatriz — disse ele, a voz desprovida de qualquer humanidade. — Eles me pagaram para que você nunca mais aparecesse em nenhum jornal desta cidade.

Beatriz desligou, destruiu o chip e olhou para o Santuário. A polícia estava a menos de dois minutos. Ela não tinha mais para onde correr. A verdade precisava ser exposta pelo seu próprio punho, ou morreria com ela sob o altar.

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