Novel

Chapter 10: Colapso de Narrativa

Beatriz é encurralada por Arnaldo em uma lan house. Ele tenta suborná-la para silenciar as provas da Linha 42, mas ela recusa. O hospital corta a energia do quarteirão enquanto o upload das provas de experimentos humanos chega a 99%, deixando o destino da denúncia em suspenso.

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Colapso de Narrativa

O ar na lan house de Santa Fé era denso, um misto de ozônio, poeira e o suor frio que Beatriz Viana sentia escorrer por suas costas. Eram 22h15. O relógio digital no canto da tela era uma sentença: 43 horas para a auditoria externa. Se ela não expusesse o sistema até lá, o Hospital Santa Fé apagaria os rastros de uma década de atrocidades.

O tilintar da porta de metal interrompeu o zumbido dos coolers. O Dr. Arnaldo Siqueira entrou, o terno de corte italiano destoando da decadência do lugar. Atrás dele, dois homens em trajes escuros posicionaram-se como estátuas de mármore, bloqueando a saída. Arnaldo puxou uma cadeira de plástico, o atrito estridente contra o piso de cimento ecoando como um aviso.

Ele colocou uma maleta de couro sobre a mesa encardida. O clique das travas soou como um gatilho. Dentro, maços de notas de cem e um passaporte novo.

— Você está exausta, Beatriz — a voz de Arnaldo era a de um mentor decepcionado. — O hospital não é um monstro, é uma engrenagem necessária. O que você chama de erro na Linha 42, nós chamamos de progresso científico. Seu irmão foi parte de algo maior. A dor que você carrega é um subproduto inevitável da evolução. Pegue isso, desapareça antes da meia-noite, e a história termina aqui. Se recusar, você não será apenas uma fugitiva; será um prontuário deletado que ninguém saberá ler.

Beatriz sentiu o peso do pendrive no bolso. O log da Linha 42, extraído com o custo de sua reputação e segurança, provava que pacientes marcados como 'inviáveis' eram cobaias de fármacos experimentais do conselho administrativo. Ela encarou Arnaldo, a frieza dele refletindo a estéril luz branca do hospital que ela tanto odiava.

— Meu irmão não era um experimento, Arnaldo. Ele era uma pessoa — a voz dela saiu firme, apesar do tremor nas mãos. — E a verdade que está nesse pendrive custa muito mais do que o que você trouxe.

Arnaldo levantou-se, o rosto endurecendo em uma máscara de desdém. Ele se retirou sem mais palavras, deixando a ameaça pairando no ar estagnado. Beatriz voltou-se para o monitor. O sistema, uma relíquia barulhenta, finalmente reconheceu o dispositivo. Ela iniciou o upload. A barra de progresso subia com a lentidão de uma agonia: 12%... 20%...

O firewall do hospital detectou a intrusão. A tela piscou, o sistema tentando corromper os arquivos. Beatriz iniciou um protocolo de criptografia, seus dedos voando sobre as teclas gastas. Cada segundo era um grão de areia caindo de uma ampulheta quebrada.

De repente, as luzes da lan house morreram. O silêncio foi absoluto, quebrado apenas pelo zumbido do monitor. O hospital havia cortado a energia do quarteirão. Beatriz conectou o roteador de emergência a um power bank, o sinal oscilando perigosamente. A bateria do laptop, debilitada, emitiu um aviso de carga crítica.

91%... 95%...

A porta da frente foi arrombada. Passos pesados ecoaram no corredor escuro. Beatriz não olhou para trás, seus olhos fixos na tela. O ar parecia ter sido sugado do ambiente. Ela ouviu o som de metal sendo destravado logo atrás de si.

98%...

99%.

O cursor parou. O monitor piscou uma última vez antes de apagar completamente, deixando Beatriz na escuridão total, com o upload travado na borda do abismo.

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