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Chapter 5: O Preço da Lealdade

Beatriz tenta obter o testemunho de Lucas, um residente que confirma a existência de outros três casos de uso do Beta-S. Antes que Lucas possa formalizar a denúncia, ele é capturado pela segurança do hospital. Beatriz, agora isolada e sem a corroboração física, infiltra-se no necrotério, onde ouve Arnaldo ordenar sua eliminação enquanto o cerco ao hospital se fecha.

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O Preço da Lealdade

O cheiro de papel queimado pairava sobre o estacionamento dos fundos do Hospital Santa Fé como uma sentença. Eram 03h15 da madrugada e a fumaça cinzenta subia em volutas lentas da chaminé da lavanderia, um rastro tóxico que carregava os prontuários originais que Beatriz Viana precisava para desmascarar o Dr. Arnaldo. Restavam 46 horas para a auditoria externa, e o hospital estava, literalmente, apagando sua própria história. Beatriz ajustou o casaco, sentindo o peso do pendrive no bolso. O log da linha 42 era sua única âncora, mas sem o prontuário físico para corroborar a fraude do Beta-S, ele era uma prova digital vulnerável.

— Auditora Viana. A noite está fria para rondas não autorizadas, não acha?

A voz de Valdir surgiu das sombras, pesada e arrastada. O segurança estava encostado na parede de tijolos, a luz do poste desenhando um sorriso predatório em seu rosto. Sua presença ali, bloqueando o acesso à caldeira, era o aviso de que o cerco estava fechado. Beatriz parou, o coração martelando contra as costelas. Ela não podia recuar, mas a derrota estava escrita na postura relaxada do homem. Ele sabia exatamente o que ela buscava.

— Estou apenas conferindo o descarte de resíduos, Valdir. É parte do meu protocolo de auditoria — ela mentiu, a voz firme apesar da náusea.

— O protocolo mudou, Beatriz. O Dr. Arnaldo prefere que a auditoria seja feita com papéis limpos. Ou com nenhum papel.

Ele não a impediu de sair, mas o aviso ecoou em seus ouvidos enquanto ela se afastava em direção à rodoviária. Ela precisava de Lucas. O residente era o único que poderia validar a injeção fatal do Beta-S.

O café próximo à rodoviária era um antro de óleo queimado e café barato. Lucas estava sentado em uma mesa de canto, a xícara de porcelana lascada batendo ritmicamente contra a borda — um tique nervoso que marcava os minutos que lhe restavam.

— Eu não posso, Beatriz — Lucas sussurrou, os olhos fixos na porta. — O Dr. Arnaldo não apenas ordenou a aplicação do Beta-S. Ele supervisionou cada detalhe como um rito de passagem. Não foi só o paciente 402. Existem outros três prontuários. Três vidas apagadas do sistema antes que o óbito fosse oficializado.

Beatriz sentiu o sangue gelar. A escala da atrocidade era maior do que ela temia. Ela deslizou o pendrive pela mesa, escondido sob um guardanapo.

— Se você me der os nomes, se confirmar o que está na linha 42, nós podemos parar isso. O hospital não vai conseguir enterrar quatro casos.

Lucas empalideceu. Seus olhos se fixaram na entrada do café, onde um sedã preto com vidros fumês acabara de estacionar.

— Eles me encontraram — ele soluçou, levantando-se abruptamente.

Antes que Beatriz pudesse segurá-lo, a porta do café foi aberta com violência. Dois seguranças do hospital, rostos que ela conhecia das rondas noturnas, agarraram Lucas pelos braços. O residente não ofereceu resistência; ele parecia ter desistido de viver no instante em que as mãos deles tocaram seu uniforme. Beatriz assistiu, paralisada, enquanto ele era arrastado para o sedã. O carro arrancou, deixando apenas o silêncio de uma cidade que aprendera a olhar para o outro lado.

Sem o depoimento de Lucas, sua prova digital era apenas um arquivo corrompido, uma teoria de uma auditora desequilibrada. O custo de sua lealdade à verdade subia a cada minuto. Ela voltou ao hospital, infiltrando-se pelo necrotério, a única área onde a vigilância de Valdir era menos frequente devido ao fluxo de corpos.

O ar no necrotério tinha gosto metálico de desinfetante. Beatriz pressionou as costas contra a lateral fria de uma das gavetas metálicas. O relógio marcava 45 horas e 30 minutos. A porta de aço rangeu. Passos firmes e ritmados cortaram o ambiente: Dr. Arnaldo e Valdir.

— O prontuário 402 virou cinzas, doutor — a voz de Valdir era um rosnado. — O residente Lucas foi contido. Ele não vai abrir a boca para ninguém.

— A incineração resolve o registro, Valdir — a voz de Arnaldo era calma, piedosa, o que a tornava aterrorizante. — Mas o desvio de verbas e o uso do Beta-S deixaram rastros digitais. Precisamos de uma limpeza completa. Se a auditoria encontrar qualquer anomalia na linha 42, o santuário perderá o financiamento. E a fé, meu caro, é um ativo volátil.

Arnaldo parou a poucos metros da gaveta onde Beatriz se escondia.

— A auditora Viana está no prédio. Encontrem-na. Ela não pode sair viva para contar o que o residente ia dizer.

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