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Chapter 4: Fora do Sistema

Beatriz tenta obter o prontuário físico com a viúva do paciente 402, mas descobre que a família foi comprada pelo hospital. Ao retornar ao hospital para uma última tentativa de recuperar o documento original, ela chega tarde demais: os registros estão sendo incinerados, e seu único aliado, o residente Lucas, é capturado pela segurança.

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Fora do Sistema

O asfalto do estacionamento do Hospital Santa Fé exalava um calor úmido, impregnado pelo cheiro metálico de ozônio e cinzas que subia da ala de manutenção. Beatriz Viana apertou o pendrive contra a palma da mão, a borda metálica perfurando sua pele. O dispositivo era a única prova de que o paciente 402, morto às 23h10, não fora vítima de uma falha cardíaca natural, mas de uma toxicidade deliberada pelo fármaco experimental Beta-S.

— Onde você pensa que vai, Beatriz? — A voz de Valdir era um rosnado baixo, vindo de trás de um pilar de concreto. O segurança não estava armado, mas sua postura era a de quem não precisava de armas para neutralizar uma auditora que todos na cidade já viam como uma pária. Beatriz não parou. O relógio interno de sua mente marcava 46 horas até a auditoria externa. Cada segundo ali era um risco de ser interceptada.

— Saia da frente, Valdir. Eu ainda sou a autoridade responsável pela conformidade nesta unidade — ela respondeu, mantendo uma frieza clínica que mascarava o pavor. Valdir bloqueou seu caminho, um sorriso desprovido de qualquer empatia surgindo sob a luz amarela dos postes.

— Conformidade? Você está brincando com a fé desta cidade. O Dr. Arnaldo não gosta de quem revira o passado, especialmente quando o passado é o alicerce de tudo o que temos aqui. — Ele deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Beatriz. — Lembre-se do seu irmão, Beatriz. Acidentes acontecem com quem insiste em olhar para onde não deve.

Beatriz sentiu o estômago revirar, mas não recuou. Ela esperou o momento em que um veículo de transporte de resíduos passava pela saída de serviço e, aproveitando a distração do segurança, deslizou pela lateral, alcançando seu carro. Ao arrancar, viu pelo retrovisor um sedã preto descolar do meio-fio. A caçada havia começado.

*

O ar na casa de Dona Helena, viúva do paciente 402, era pesado, saturado pelo cheiro de cera de assoalho e incenso barato. O relógio de parede marcava 02h15. Helena mantinha as mãos cruzadas sobre o colo, os nós dos dedos brancos. Ao lado dela, um advogado de terno cinza-chumbo observava Beatriz com olhos de predador.

— Eu preciso do prontuário físico, Helena — Beatriz insistiu, a voz baixa, mas cortante. — O sistema digital foi adulterado via 'Admin_Root'. Eu tenho a prova no meu bolso, mas preciso do original para derrubar o Dr. Arnaldo.

Helena soltou um suspiro trêmulo, desviando o olhar para o advogado. O homem pigarreou, um som curto, um aviso de que a autoridade ali emanava do poder que a Fundação Santa Fé exercia sobre aquela cidade de peregrinação.

— O senhor Siqueira foi muito generoso com a nossa família, Beatriz — Helena começou, a voz falhando. — Ele garantiu que a minha neta não precisasse se preocupar com a faculdade. O que aconteceu com o meu marido... foi a vontade de Deus. O hospital fez tudo o que podia.

Beatriz percebeu o abismo: não era apenas o hospital; a cidade inteira era cúmplice. O suborno era a nova fé daquele lugar. Sem o documento físico, sua prova digital seria facilmente desacreditada como uma manipulação de sistema por parte de uma auditora ressentida.

*

Beatriz retornou ao hospital na calada da noite, movida pelo desespero de recuperar o original antes da auditoria. O cheiro de papel queimado a guiou até o subsolo. O ruído da caldeira industrial tornou-se um rugido metálico que parecia zombar de sua missão.

Ela avistou o funcionário da limpeza, um homem de ombros curvados, empurrando um carrinho carregado de pastas manila. Ele não levava lixo comum; despejava pilhas de prontuários diretamente na fornalha. As chamas lambiam as bordas dos papéis, transformando a história clínica do paciente 402 em cinzas voláteis.

— Pare! — Beatriz gritou, correndo em direção à fornalha, o calor insuportável queimando seu rosto. O homem parou, o rosto iluminado por um reflexo alaranjado e doentio. Ele não demonstrou medo, apenas um cansaço resignado.

Beatriz agarrou a última pasta que estava no topo do carrinho, mas, ao abri-la, encontrou apenas folhas em branco. O prontuário físico original — a prova manuscrita que ela precisava — havia sido incinerado há menos de dez minutos. Enquanto o funcionário desviava o olhar, Beatriz ouviu passos pesados ecoando pelo corredor de concreto. Eram seguranças. E, ao longe, ela viu Lucas, o residente que a ajudara, sendo arrastado por dois homens armados em direção à ala da diretoria, antes que pudesse pronunciar uma única palavra.

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