A Verdade à Vista
O metal da porta do estúdio de transmissão gemeu sob o impacto do aríete. Beatriz Rocha sentiu a vibração percorrer seus dentes. Do lado de fora, a segurança privada do OmniHealth não pedia mais licença; eles tinham ordens diretas de Marcelo Viana para apagar tudo, inclusive ela.
— Léo, o servidor! — Bia gritou, o corpo pressionado contra a porta para ganhar segundos preciosos.
Léo, sentado ao console, tinha as mãos trêmulas. O monitor principal exibia a barra de progresso do upload travada em 98%. O firewall do hospital, uma muralha de algoritmos de purga, drenava a largura de banda como um parasita.
— O sistema detectou a intrusão! — Léo respondeu, a voz subindo uma oitava. — Viana mudou as chaves de criptografia. Se eu forçar a conexão, o sistema entende como ataque e limpa os servidores espelho automaticamente. Perdemos tudo se eu errar o timing.
Mais um estrondo. A porta deformou para dentro, lascas de tinta voando. Bia sentiu o cheiro de suor e desinfetante hospitalar que emanava do corredor, um odor que agora lhe causava náusea. A contagem regressiva para a purga total marcava oito minutos.
— Você já é cúmplice, Léo. A única forma de não ser o bode expiatório é garantir que a prova do leito 402 chegue ao servidor público. Se essa transmissão falhar, Viana sai daqui como herói e nós dois desaparecemos antes do amanhecer. Use a chave root que você copiou.
Léo hesitou. A porta sofreu um novo golpe, mais violento. O trinco cedeu. Ele soltou um suspiro trêmulo e digitou a sequência de caracteres. O cursor piscou. Por um segundo, o silêncio no estúdio foi absoluto.
De repente, a barra de progresso saltou para 100%. A notícia da exposição do erro médico de 2014, com o prontuário assinado por Viana, explodiu nas redes sociais. Notificações começaram a pipocar em todos os dispositivos da sala.
No mesmo instante, a porta cedeu. Bia foi arremessada para trás enquanto os seguranças invadiam o estúdio. Mas o servidor já tinha feito o seu trabalho. A verdade estava fora do alcance de Viana.
Bia não esperou. Enquanto os guardas se distraíam com a confusão, ela se lançou pelo corredor de serviço. O hospital era um labirinto de luzes vermelhas de emergência. Ela precisava do prontuário físico original, a prova que selou o destino de seu familiar, escondida nos arquivos mortos da administração.
— Você não vai sair daqui, Bia! — A voz de Viana veio da galeria superior, fria e desprovida de qualquer humanidade.
Ele estava encurralado entre um grupo de pacientes em pânico e a própria Bia. Ele usava o medo alheio como escudo, empurrando um enfermeiro assustado para o caminho de Bia enquanto tentava alcançar a escada de emergência.
Bia viu o momento exato em que ele hesitou diante da porta do arquivo morto. Uma enfermeira caiu, derrubando uma bandeja de medicamentos. O grito de dor da mulher, presa sob uma maca virada, reverberou. Bia freou. O desvio custou-lhe o fôlego, mas ela se abaixou para estabilizar a maca. Quando levantou a cabeça, Viana havia desaparecido por trás de uma porta corta-fogo.
No entanto, ele deixara cair algo: uma credencial de acesso de alto nível. E, na pressa, a porta da escada de serviço estava entreaberta. Ele não estava fugindo pela saída principal; estava indo para o subsolo.
O ar na doca de carga era denso, carregado com o cheiro de diesel. Bia atravessou o corredor, os pulmões ardendo. À frente, sob a luz trêmula de um refletor, Viana estava parado diante de uma SUV blindada. Nas mãos, uma pasta de couro exibia o selo oficial do OmniHealth — a prova final.
— O hospital está sendo lacrado, Bia. A polícia está no saguão, mas eles não sabem o que procurar. Eles querem um culpado, não a verdade — Viana disse, protegendo a pasta contra o peito.
— Eles têm o servidor espelho. A purga não vai apagar o que já está na rede — Bia avançou, a voz firme.
Viana sorriu, um desprezo gélido no rosto. Ele abriu a pasta e retirou um único documento, lançando-o em direção a Bia. O papel deslizou pelo chão de concreto, parando aos pés dela, sujo de óleo.
— Leia, Beatriz. Se você quer tanto a verdade, sinta o peso dela antes que eu desapareça nesta cidade.
Ele entrou no carro. O motor rugiu, abafando o som das sirenes que começavam a ecoar pelos túneis do hospital. O SUV arrancou, sumindo na escuridão da chuva de São Paulo.
Segundos depois, lanternas da polícia cortaram o pátio. Bia viu o reflexo azul e vermelho nas poças. Seus olhos estavam fixos no documento em suas mãos. No topo da página, a letra inconfundível de Marcelo Viana confirmava a negligência. A verdade estava ali, mas enquanto a polícia a cercava, Bia percebeu que o preço daquela vitória era a sua própria liberdade.