A Contagem Final
O estúdio de transmissão da OmniHealth não era apenas um cenário; era uma câmara de pressão. O contador no monitor de Léo marcava 08:14. Oito minutos para a purga definitiva. O firewall do hospital, uma arquitetura de silício desenhada para enterrar a falência ética dos Viana, rugia em silêncio, devorando os pacotes de dados de Bia como um predador.
— Não está passando, Bia! — Léo soluçou, os dedos voando sobre o teclado com uma precisão trêmula. — A assinatura do arquivo 402 foi marcada como 'corrompida' pelo sistema central. Eles estão deletando o prontuário em tempo real enquanto tentamos subir o backup.
Bia sentiu o peso do leito 402, o fantasma do familiar que ela não pôde salvar em 2014, comprimindo seus pulmões. O som de socos metálicos contra a porta de vidro blindado do estúdio era o tique-taque de um relógio de execução. A segurança de Marcelo Viana não estava lá para negociar.
A porta cedeu. Marcelo Viana entrou, o terno impecável, a postura de quem nunca havia cometido um erro na vida. Ele ignorou Bia, caminhando direto para a luz dos refletores, ajustando a lapela com uma calma que era, por si só, uma arma.
— Peço desculpas pela interrupção — disse ele, a voz aveludada projetando autoridade para as lentes da câmera que transmitiam a live para milhares de médicos e acionistas. — Temos uma funcionária em surto psicótico. A pressão da auditoria cobrou seu preço. Já estamos providenciando o atendimento psiquiátrico.
Bia invadiu o campo de visão da câmera, forçando o enquadramento. Ela não era mais a auditora contida; era a prova viva da podridão que ele tentava esconder.
— O prontuário 402, Marcelo — ela disparou, a voz cortante, ignorando o segurança que a agarrava pelo braço. — Você acha que o público não sabe que a purga de 2014 foi assinada pelo seu login? Eu tenho os logs. Eu tenho a assinatura da sua linhagem na morte daquele paciente.
A máscara de Viana vacilou. Por um segundo, o pânico bruto de quem via seu status social ruir em rede nacional brilhou em seus olhos.
— Você não tem nada — sibilou ele, o rosto a centímetros do dela, a voz um veneno contido.
— Seis minutos — Léo gritou, a voz falhando. — Bia, se isso cair, eles vão me apagar junto com os registros!
Bia tomou a decisão. Ela não esperou. Com um movimento brutal, ela arrancou o painel de refrigeração do servidor principal. O curto-circuito fez as luzes do estúdio piscarem e os alarmes de incêndio do prédio soarem em um coro ensurdecedor. O firewall, forçado a um reinício de emergência, vacilou.
— Agora, Léo! — ela ordenou.
O upload saltou para 92%. A segurança avançou, botas pesadas martelando o piso. Bia ouviu o clique metálico de uma arma sendo destravada. O firewall, em um último suspiro de resistência, bloqueou o sinal. O áudio da confissão de Marcelo, captado pelo microfone de lapela, começou a falhar, morrendo em um ruído estático enquanto a conexão era cortada. O silêncio tomou o estúdio. O upload travou em 98%. Bia sentiu o segurança agarrar seu ombro, mas, no canto da tela, um pequeno ícone brilhou: Servidor Espelho Ativo. A verdade estava fora da rede.
O firewall bloqueou o upload final. O áudio da confissão de Marcelo começou a falhar, morrendo em um ruído estático. O silêncio tomou o estúdio, interrompido apenas pelo som das sirenes da polícia que começavam a ecoar lá fora, mas Bia sabia: Marcelo já estava se movendo para a saída dos fundos.