O Ponto de Ruptura
O silêncio na ala leste da mansão dos Viana não era paz; era um vácuo de predação. Beatriz “Bia” Rocha estava prensada contra a boiserie fria de um corredor de serviço, com o coração martelando contra as costelas. Faltavam exatos vinte e oito minutos para que o protocolo de purga do OmniHealth deletasse, de forma irreversível, os registros do leito 402 e a assinatura digital de Marcelo Viana na falha de 2014.
Ela viu Elena, a enfermeira que carregava a verdade, ser arrastada pelo corredor por dois homens de terno cinza-chumbo. Eles não gritavam. Eram profissionais, movendo-se com a precisão de quem limpava um derramamento de café. Elena tentou se soltar, mas um dos seguranças pressionou um ponto em seu pescoço, silenciando-a. A porta de serviço bateu, selando o destino da testemunha. Bia sentiu o peso do pen drive no bolso da jaqueta — uma evidência que, naquele momento, parecia menos uma arma e mais uma sentença de morte. Ela fora identificada. As câmeras de alta definição da mansão piscavam com uma luz azulada, um lembrete constante de que sua biometria circulava nos rádios da equipe de segurança. Ela não podia lutar contra a casa, mas podia cegá-la. Bia disparou em direção ao painel de energia, arrancando a fiação com as unhas, mergulhando a ala na escuridão total enquanto saltava a janela para a mata fechada de Petrópolis.
O motor do carro vibrava sob suas mãos, um tremor que ecoava a urgência em seu peito. A estrada para São Paulo era um borrão de sombras. Bia conectou o pen drive ao notebook, ignorando o aviso de bateria fraca. O sistema OmniHealth, como um predador faminto, já estava em processo de purga. Pastas inteiras desapareciam com estalos digitais. Ao abrir o arquivo principal, a imagem granulada revelou Marcelo Viana em uma sala de cirurgia, coordenando uma intervenção que não constava em nenhum prontuário, com uma frieza que congelou o ar dentro do veículo. Não era erro médico; era um procedimento experimental, uma limpeza de evidências humanas executada como reparo mecânico. De repente, seu celular vibrou. Uma foto de Bia entrando no hospital, enviada por Viana, acompanhada da legenda: O tempo acabou.
Ao chegar ao OmniHealth, o ar tinha o cheiro estéril de um freezer de morgue. O relógio na parede do setor de triagem piscava: 00:22:14 para a purga. Bia ignorou a dor latejante no tornozelo e a imagem de Elena sendo levada. Se Viana queria enterrar o passado, faria isso sob os holofotes. Ela dobrou o corredor em direção à ala de mídia. O estúdio de livestreaming estava ocupado. Através do vidro reforçado, viu Viana ajustando a gravata com placidez calculada, enquanto Léo, o técnico, tremia diante do console. Viana preparava o pronunciamento que oficializaria a versão da diretoria: um erro isolado. Bia parou no ponto cego da câmera. Se entrasse, seria detida. Se esperasse, a verdade morreria. Ela sacou o dispositivo, invadiu o feed de transmissão e, no momento em que a imagem do crime apareceu nos monitores de todo o hospital, entrou no estúdio. Viana, interrompido em sua mentira, virou-se lentamente, os olhos fixos nela com uma promessa de destruição absoluta.