A Casa de Vidro
A chuva em Petrópolis não lavava a lama da encosta; ela a transformava em uma pasta escura que grudava nos pneus do carro de Bia, como se a própria terra tentasse retê-la. No painel, o relógio digital marcava quarenta minutos para a purga definitiva do sistema OmniHealth. Cada segundo era um golpe seco contra sua sanidade. Bia desligou o motor, o silêncio da serra preenchido apenas pelo estalo metálico do motor esfriando e pelo bater rítmico da chuva contra o teto. Ela tocou o bolso interno do casaco, onde o pen drive com o log de 2014 e os dados do leito 402 pesavam como uma sentença de morte. A prova estava ali, mas era inútil se ela não encontrasse Elena, a única peça humana capaz de dar rosto àquela engrenagem de corrupção.
A mansão dos Viana surgia entre os pinheiros como um mausoléu de vidro e aço, um monumento ao privilégio erguido sobre o terreno onde, anos atrás, o silêncio da família de Alberto fora comprado com um punhado de notas e uma mentira médica. Bia saiu do carro, sentindo o frio penetrar a jaqueta. Ela contornou o muro de pedra, movendo-se pelas sombras projetadas pelos pinheiros, até encontrar o ponto cego que Léo descrevera. Ao se aproximar da grade lateral, o zumbido quase imperceptível de um motor elétrico a fez congelar. Acima dela, uma câmera de segurança de última geração girou lentamente, o brilho azulado do sensor varrendo a calçada com precisão cirúrgica. Não era um equipamento residencial comum; era vigilância de nível hospitalar, instalada para garantir que ninguém saísse daquela propriedade com a verdade.
Bia esperou o sensor girar para o lado oposto e deslizou para o jardim, o coração martelando contra as costelas. Ela forçou a janela do escritório, entrando como uma sombra. O ar cheirava a charuto caro e a uma tensão estéril. No centro da sala, Marcelo Viana estava curvado sobre uma mesa de mogno. Ele não estava operando, nem atendendo pacientes. Ele organizava pilhas de documentos bancários com uma precisão maníaca, murmurando para si mesmo sobre a necessidade de manter o sobrenome imaculado. Quando ele passou a mão pelo rosto, desfigurado por uma obsessão que beirava a loucura, Bia viu o que ele escondia: um prontuário original com o selo do hospital rasgado. Era a prova da fraude, com anotações manuais que contradiziam o laudo oficial que destruíra a vida de sua família.
Ela avançou, os dedos roçando o papel, mas o assoalho rangeu sob sua bota. Marcelo parou de murmurar instantaneamente. O silêncio no escritório tornou-se uma lâmina afiada. — Quem está aí? — a voz dele não era a de um médico, mas de um predador acuado. Bia recuou, mas o rádio no bolso vibrou. Léo estava a dois quarteirões, sua voz soando como um aviso desesperado pelo fone de ouvido: — Bia, saia daí! Eles ativaram o protocolo de contenção. Estão vindo buscar a enfermeira agora.
Bia correu para o corredor, ignorando a presença de Marcelo. Ela precisava chegar ao quarto de hóspedes antes da segurança. Encontrou Elena encolhida no canto de um quarto que parecia uma cela de luxo. A enfermeira tremia, os olhos fixos na porta. — Elena, eu tenho as provas — Bia sussurrou, puxando o pen drive do bolso. — O log de 2014, o leito 402. O sistema vai apagar tudo em menos de trinta minutos. Se você falar agora, podemos quebrar o ciclo.
Elena soluçou, recuando. — Você não entende, Bia. Eles não protegem apenas o hospital. Eles protegem o que fizeram com a minha família. Se eu falar, eles terminam o serviço.
Bia sentiu o peso da derrota iminente. Ela alcançou a mão de Elena, tentando forçar a conexão, mas o som de passos pesados ecoou no corredor de mármore. Pelo reflexo da janela, Bia viu o brilho de uma lente de câmera instalada no canto do teto, um dispositivo que não deveria estar ali, observando cada movimento seu. Ela percebeu, tarde demais, que não era apenas uma invasora; ela era o alvo sendo documentado. Antes que pudesse dizer mais uma palavra, a porta do quarto foi arrombada pela segurança particular, e Elena foi arrancada de seus braços como um objeto descartável, deixando Bia sozinha com o pen drive e o cronômetro da purga correndo contra o vazio.