O Silêncio da Ala Leste
O ar na Ala de Isolamento tinha o gosto metálico de ozônio e desinfetante industrial, bombeado com uma violência mecânica pelos dutos de ventilação. Bia Rocha pressionou as palmas das mãos contra a parede fria. Sem janelas, o tempo ali dentro não passava; ele se acumulava como poeira em um setor fantasma que não constava em nenhum mapa oficial do Santa Cecília. Ela olhou para o relógio digital embutido no painel de controle da porta: 18 horas para a purga total do sistema OmniHealth. Cada segundo era um suspiro a menos para a verdade sobre Alberto, o jardineiro que vira sua família ruir dez anos atrás, agora reduzido a um prontuário no leito 402.
O leitor de cartão emitiu um bipe seco e desdenhoso: Acesso Negado. O Dr. Marcelo Viana não a trancara apenas ali; ele a cortara da rede. Bia tateou a lateral do painel, os dedos calejados pelo hábito de conferir registros buscando qualquer falha. Seus dedos encontraram uma placa de manutenção mal vedada, escondida por uma camada de tinta branca que mal disfarçava a corrosão. Ela puxou a placa com um puxão seco, as unhas raspando no metal, e encontrou os cabos de fibra ótica. Se Léo não a ajudasse agora, o drive criptografado em seu bolso seria apenas um peso morto em um hospital que se autodepurava.
O celular em seu bolso vibrou. Não era a interface de rede, mas uma chamada direta. O identificador estava bloqueado, mas o som que emergiu não foi a voz do técnico, mas um chiado estático que parecia arranhar o tímpano antes de se estabilizar em um tom grave, pausado, inconfundivelmente familiar.
— Beatriz, o erro não estava na dosagem. Estava no filtro. Eles sabiam que o fluxo ia romper. — A voz de Alberto recitava detalhes técnicos com uma precisão cirúrgica. — A válvula da ala norte foi bloqueada propositalmente. Procure o log de pressão de 2014.
Bia sentiu o sangue fugir de seu rosto. Aquilo era impossível. Alberto estava morto. Ela se arrastou até o terminal de serviço que conseguira acessar ao contornar a segurança da ala, a respiração curta. Ao hackear a fechadura, descobriu que o sistema não estava apenas apagando arquivos; estava reescrevendo a história do hospital em tempo real. O log de 2014, antes inacessível, piscava diante dela. A assinatura digital na ordem de bloqueio da válvula era de Viana.
Ela conseguiu se esgueirar até um terminal auxiliar no subsolo, onde encontrou Léo escondido entre servidores. O técnico tremia, os olhos fixos em um monitor que exibia a barra de progresso da 'Limpeza Final'.
— Você não entende, Bia — Léo sussurrou, a voz quebrada pela pressão. — Eles não estão apagando prontuários. Estão apagando testemunhas. Eu ajudei a forjar a primeira morte. A de Alberto foi o teste. Se você expuser isso, o sistema não vai apenas te demitir. Ele vai te enterrar junto com o resto da história.
O celular de Léo vibrou intensamente com uma notificação em vermelho sangue que iluminou o rosto pálido do técnico: LIMPEZA FINAL INICIADA. O tempo restante saltou para menos de uma hora. Bia sentiu o peso do drive em sua mão. Não era mais sobre auditoria. Era sobre sobrevivência. Ela se virou para sair, mas o corredor, antes silencioso, foi preenchido pelo som mecânico de uma fechadura magnética sendo liberada. A porta da ala de isolamento se abriu sozinha. Não havia ninguém no corredor, apenas um celular descartável repousando no centro do piso frio, tocando uma gravação em loop que ecoava pelo corredor vazio como uma sentença.