A Prova Inexistente
O ar no CPD era gélido, um ambiente estéril onde o zumbido dos servidores parecia o tique-taque de uma bomba. Na tela, o contador do protocolo OmniHealth marcava 23:58:12. O sistema não apenas purgaria os dados; ele os incineraria.
Léo tremia, as mãos pairando sobre o teclado como se o hardware queimasse.
— Tira isso daí, Bia. Se o Viana notar esse acesso root, ele não vai apenas me demitir. Ele vai me apagar. Ele sabe o que eu fiz no caso anterior. Ele é dono da minha dívida e da minha vida.
Bia ignorou o pânico dele. Seus olhos estavam fixos na imagem do prontuário que acabara de abrir. O homem na foto, com a pele acinzentada e o tubo de oxigênio mal posicionado, não era um estranho. Era Alberto, o jardineiro que cuidara do quintal de sua família por uma década. O mesmo homem que ela vira ser declarado morto por 'insuficiência cardíaca' cinco anos atrás, na mesma ala, sob a supervisão do mesmo protocolo que agora tentava esconder o óbito do leito 402.
— Ele não morreu de causas naturais, Léo — Bia sussurrou, a voz cortante. — Ele era o denunciante. Ele descobriu o desvio de verbas e vocês o silenciaram. Você foi cúmplice, não foi?
Léo recuou, batendo as costas contra um rack. O terror em seus olhos foi a confissão que ela precisava. Não era um erro médico; era um procedimento operacional padrão. Uma limpeza deliberada de quem ousava olhar para as contas do hospital.
— O sistema registrou o acesso — Léo sibilou, olhando para a porta de vidro. — Viana vai saber em segundos.
Antes que Bia pudesse extrair o arquivo, o feixe de uma lanterna cortou a penumbra. Silva, o segurança, parou na entrada. O rádio em seu ombro chiava com a autoridade de quem recebia ordens diretas da diretoria.
— Rocha? O que você está fazendo aqui?
Bia sentiu o peso do tablet contra o peito. Ela deu um passo à frente, forçando uma frieza clínica que não sentia.
— Problemas de integração no servidor de imagens, Silva. O Dr. Viana me pediu uma auditoria urgente nos logs de acesso — ela mentiu, a voz firme enquanto sua mão, escondida sob o jaleco, finalizava a cópia do arquivo para um drive externo. — Quer que eu relate ao diretor que você está impedindo o trabalho da auditoria?
O segurança hesitou. A hesitação custou-lhe cinco segundos preciosos. Bia guardou o tablet e passou por ele, mantendo o passo calculado até o corredor.
Ao chegar à ala de isolamento, o silêncio era denso. O relógio interno de Bia gritava: 18 horas para a purga. Ela empurrou a porta do leito 402. O quarto estava vazio, a cama desfeita, os lençóis amontoados como se alguém tivesse sido removido às pressas. Sobre a mesa de cabeceira, um celular descartável vibrava ritmicamente contra o metal.
Bia atendeu. Uma voz distorcida preencheu o ambiente:
— Você está olhando para o passado, Beatriz. Mas o seu futuro acaba de ser encurtado. O erro médico que destruiu sua família não foi um acidente. Foi o seu primeiro teste de lealdade, e você falhou.
A chamada caiu. A porta da ala, antes entreaberta, fechou-se com um estalo metálico, trancando-a no isolamento.