O Preço do Acesso
O zumbido dos servidores no subsolo do Hospital Santa Cecília não era um ruído branco; era a contagem de um batimento cardíaco moribundo. Bia Rocha observava Léo, cujos dedos tremiam sobre o teclado mecânico, a pele pálida iluminada apenas pelo brilho azulado de múltiplas linhas de comando. O relógio no canto da tela marcava 47:12:05. A purga do OmniHealth não era apenas uma limpeza de arquivos; era uma incineração digital.
— Léo, para de hesitar. Se eles limparem o diretório principal, não sobra nada do leito 402 — Bia sibilou, sentindo o peso do crachá contra o peito como um alvo.
Léo parou, o cursor piscando como um alerta de emergência. Ele girou a cadeira, o suor brilhando em sua testa.
— Você não entende, Bia. O Viana não está apenas monitorando a rede. Ele mudou o protocolo de purga. A diretoria reduziu o prazo pela metade. Se eu abrir o acesso root para você, eles saberão em segundos. E eu já estou pendurado por um fio com as dívidas que eles compraram.
Bia sentiu o estômago revirar. O custo não era apenas o emprego; era a sobrevivência de Léo. Ela se inclinou, invadindo o espaço pessoal dele, a urgência substituindo qualquer traço de diplomacia profissional.
— E quanto a mim? — ela rebateu, a voz cortante. — Eles usam o meu trauma, a morte da minha família, como uma coleira. Se eu não provar que o 402 foi negligência, eu perco a minha licença e, possivelmente, a minha liberdade. Não somos apenas funcionários aqui, Léo. Somos danos colaterais.
Antes que ele respondesse, um alerta vermelho pulsou em todos os monitores. O sistema de segurança do hospital havia sido invadido, não por um hacker externo, mas por um comando interno de nível executivo. A tela exibiu o feed da câmera do próprio CPD. No vídeo, Bia viu a si mesma e Léo, capturados em alta definição, como se estivessem dentro de um estúdio de livestreaming montado para a espetacularização da dor. Viana estava assistindo em tempo real.
Léo soltou um suspiro trêmulo, o rosto perdendo a cor. Ele digitou uma sequência rápida, ignorando os avisos de erro que saltavam pela tela.
— Eu não posso parar a purga, Bia. Mas posso copiar o fragmento para um servidor offline antes que o protocolo apague tudo. Só que tem um custo. Eu fiz isso antes. Quando o primeiro paciente morreu, eu apaguei os registros para eles. Eu não sou um herói, sou cúmplice.
O silêncio no CPD tornou-se claustrofóbico. Bia olhou para a tela, onde o arquivo corrompido finalmente se abriu em uma miniatura: a foto do paciente morto. O mundo pareceu oscilar. O rosto no prontuário não era um estranho; era o homem que ela tentara salvar anos atrás, no erro médico que destruiu seu passado. A caçada não era apenas institucional; era pessoal, e o tempo para a verdade estava sendo devorado pelo sistema que ela jurou auditar.