Novel

Chapter 1: A Falha no Monitor

Bia Rocha, auditora do Hospital Santa Cecília, descobre um erro médico fatal no leito 402 durante uma gravação de marketing. Confrontada por Marcelo Viana, que usa o passado traumático de Bia como ameaça, ela busca o técnico Léo para acessar os logs brutos. O sistema, porém, detecta a intrusão e deleta a prova, iniciando uma contagem regressiva para a purga total dos dados.

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A Falha no Monitor

O foco da câmera de LED estava ajustado para suavizar as olheiras de Beatriz Rocha, mas não podia esconder o tremor em suas mãos. Ela estava no estúdio de livestreaming do Hospital Santa Cecília, um cubo estéril de paredes brancas e luzes frias, simulando a imagem de uma instituição impecável enquanto, no tablet escondido sob a bancada de vidro, os sinais vitais do leito 402 desciam para uma linha reta definitiva.

— E é esse compromisso inabalável com a vida que nos define — Bia sorriu para a lente, uma máscara de profissionalismo que ela cultivava como um escudo. — A precisão, o tempo de resposta, o cuidado absoluto.

O diretor do estúdio fez um sinal de corte. Bia soltou o ar, o sorriso desmoronando. Ela não perdeu tempo. Seus dedos deslizaram pelo tablet, ignorando o roteiro de marketing e acessando o prontuário digital do paciente do 402. O sistema OmniHealth exigia autenticação de nível três. Ela digitou sua senha com a rapidez de quem já havia feito aquilo centenas de vezes, mas o coração disparou ao ver a discrepância. O registro oficial, assinado digitalmente há dez minutos, afirmava: "Morte por causas naturais, falência múltipla de órgãos". O monitor cardíaco, no entanto, ainda alimentava o banco de dados interno com os logs brutos. Bia abriu o arquivo de telemetria. Administração de cloreto de potássio em bolus. O erro era grosseiro, fatal e impossível de ignorar. No canto da tela, um ícone de alerta piscava em âmbar: Protocolo de Limpeza Automática: 48 horas restantes.

A porta do estúdio fechou com um estalo metálico. Bia ainda sentia o gosto amargo do roteiro que fora obrigada a ler, uma sequência de palavras vazias sobre excelência enquanto, na palma de sua mão, o tablet queimava com o registro real: uma dose de potássio que não deveria estar lá.

— Excelente performance, Bia. O marketing vai adorar a naturalidade. — A voz de Marcelo Viana ecoou pelo corredor. Ele estava parado na penumbra, as mãos cruzadas atrás das costas, observando-a como um predador que não precisa ter pressa. Bia travou, escondendo o aparelho contra o corpo. O relógio no visor do corredor marcava 47 horas e 58 minutos para a purga.

— Doutor Viana. A gravação foi apenas o que me pediram — respondeu ela, forçando a voz a manter o tom profissional.

Ele deu um passo à frente, entrando na zona de luz. O perfume caro e a postura impecável de Viana eram uma afronta ao caos que Bia acabara de descobrir.

— Sabe, Bia, a memória é uma ferramenta traiçoeira. Às vezes, lembramos de coisas que não aconteceram da forma que gostaríamos. Como seu tio, por exemplo. Um caso lamentável, mas encerrado. — Ele não a confrontou sobre o prontuário, mas seu olhar pousou no tablet com uma curiosidade cirúrgica. — Não gostaria que sua carreira seguisse o mesmo caminho daquele prontuário esquecido. A lealdade é a moeda mais valiosa neste hospital.

Bia sentiu o sangue gelar. Ele sabia. Ele monitorava seus acessos. O hospital não estava apenas escondendo um erro; estava protegendo um protocolo de eliminação de provas que envolvia a própria diretoria. Ela não podia recuar.

O ar na sala de servidores cheirava a ozônio e plástico queimado. Ela não tinha tempo para sutilezas. O relógio marcava 47 horas e 12 minutos. Bia encontrou Léo encolhido atrás de um rack de cabos, os dedos tremendo sobre o teclado.

— Léo, para agora. Eu preciso do acesso root. O leito 402 não foi uma parada cardíaca natural, e você sabe disso — Bia sussurrou, a voz cortante.

Léo levantou os olhos, o rosto pálido refletindo a luz azulada dos monitores.

— Você não entende, Bia. Se eu abrir essa porta, não é só o meu emprego. Eles vão apagar a minha vida. O Dr. Viana já me avisou que qualquer acesso indevido seria interpretado como sabotagem corporativa. Eu perco tudo.

Bia segurou o pulso de Léo, sentindo o pulso acelerado dele sob a pele. A imagem do seu tio, anos atrás, sendo declarado morto por complicações inevitáveis enquanto ela, ainda estudante, via a medicação errada ser retirada do prontuário, queimava em sua mente. Ela forçou a mão dele contra o teclado.

— Eu não vou deixar que façam o mesmo com outra pessoa. Abre o sistema.

Léo cedeu, digitando a sequência de comandos. A tela piscou, carregando o arquivo original. Bia sentiu um alívio momentâneo antes de ver a barra de progresso ser interrompida por um aviso de erro crítico. O cursor na tela piscou e o arquivo foi deletado permanentemente. A contagem regressiva para a próxima purga começou, e Bia percebeu que o sistema não estava apenas protegendo o erro, ele estava caçando quem ousasse olhar.

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