O Relógio da UTI
O visor digital acima da porta de serviço marcava 03:32. Faltavam vinte e oito minutos para que o sistema de purga do Hospital Metropolitano varresse os servidores, apagando permanentemente qualquer rastro do Protocolo Lázaro-Beta. Elias sentiu o peso do drive USB no bolso da calça, uma evidência que, naquele momento, valia menos que a chave de um armário trancado. Seu crachá, agora um pedaço de plástico inútil, falhara na catraca do setor administrativo, disparando um alerta silencioso que ele sentia vibrar na própria espinha. Ele não era mais um funcionário; era um erro no sistema a ser corrigido.
O corredor de manutenção, impregnado com o cheiro de desinfetante e o mofo das tubulações, parecia se estreitar a cada passo. Atrás dele, o som de botas pesadas ecoou contra o linóleo. A segurança de Viana não estava apenas patrulhando; eles estavam caçando. Elias encolheu-se atrás de um carrinho de lavanderia, observando o reflexo de sua própria face em um vidro espelhado. Os olhos fundos, a pele pálida, a expressão de quem já aceitara que a dignidade era o primeiro preço a ser pago. Ele precisava chegar à UTI. Se Helena fosse transferida antes das 04:00, sua única testemunha desapareceria no labirinto da instituição.
Às 03:40, ele alcançou a ala de terapia intensiva. Helena estava imóvel na cama 4, conectada a um emaranhado de tubos que pareciam drenar sua vida. O monitor cardíaco emitia bipes rítmicos, um metrônomo cruel medindo o tempo que lhe restava. Ela estava sedada, mas não por necessidade médica; era uma contenção química, um silêncio forçado para garantir que o Lázaro-Beta permanecesse enterrado sob camadas de burocracia.
— Helena, por favor — sussurrou, tocando sua mão cerosa. — Eu sei do protocolo. Preciso que você me diga quem assinou isso.
Ela moveu os dedos, um espasmo lento, e seus olhos abriram-se numa fresta, vidrados. O monitor acelerou. Ela tentou articular algo, mas apenas um som gutural escapou, sufocado pelo tubo. Elias inclinou-se, sentindo o hálito frio do quarto. Helena forçou o pescoço, ignorando a dor da agulha em seu braço, e seus lábios se moveram com um esforço hercúleo.
— Almeida... Equity — ela sibilou, o nome soando como uma maldição. Antes que ele pudesse processar o peso da revelação, a porta se abriu com um estalo seco.
A enfermeira-chefe entrou com uma seringa já preparada, o semblante tão gélido quanto os algoritmos que governavam o hospital.
— O horário de visitas terminou, Elias. Você sabe que sua presença aqui é uma violação direta — ela disse, ajustando o gotejamento da bomba de infusão com uma precisão que beirava o sadismo.
Seguranças surgiram atrás dela, mãos nos rádios, olhos fixos em Elias. Ele não teve escolha. Recuou, o drive USB queimando em seu bolso, e foi escoltado para fora da ala sob ameaça física. A cada passo para longe de Helena, o relógio da parede parecia correr mais rápido. 03:50. Ele correu pelo pátio de serviço, a chuva torrencial de São Paulo transformando o chão em uma lama escura que grudava em seus sapatos. Atrás dele, as luzes de emergência piscavam como olhos de um predador. Ao tentar pular o muro do estacionamento, o celular escorregou de seu bolso, afundando na lama e apagando-se instantaneamente. Isolado na tempestade, com apenas o drive USB, ele olhou para o relógio da fachada: 03:55. O sistema imunológico do hospital estava prestes a fechar o cerco.