Evidência de Chuva
A chuva em São Paulo não era apenas clima; era um solvente ácido que corroía o asfalto e a esperança. Elias escorregou no pátio de serviço, o joelho colidindo brutalmente contra uma grade de ferro enferrujada. O impacto enviou uma descarga de dor por sua perna, mas ele não parou. Não podia. Sem o celular — perdido no lodo durante a fuga da UTI — e com o crachá bloqueado, ele era um fantasma caçado em seu próprio local de trabalho. O relógio digital acima da porta de carga brilhava em um vermelho clínico: 03:55.
Cinco minutos. O sistema de purga automática apagaria qualquer rastro do Protocolo Lázaro-Beta às 04:00. Helena não sobreviveria a outra rodada de 'tratamento experimental' financiado pela Almeida Equity. Elias apertou o drive USB contra a palma da mão até as bordas de plástico marcarem sua pele. Era a única prova de que a falha médica não fora um acidente, mas um teste de campo patrocinado por Viana.
Ele contornou a área de carga, o peito arfante, enquanto o som de botas pesadas batendo contra o concreto molhado ecoava entre as caçambas. A equipe de segurança estava fechando o perímetro. Elias forçou a entrada do depósito de lixo eletrônico. A tranca, oxidada pela umidade, cedeu com um estalo metálico que soou como um tiro no silêncio da noite.
Lá dentro, o ar cheirava a ozônio e plástico queimado. Fileiras de servidores obsoletos formavam um labirinto escuro. Elias correu para a bancada de descarte. Ao conectar o drive, a tela piscou, exibindo erros de redundância. 03:58. Com dedos trêmulos, ele iniciou a extração forçada. A barra de progresso avançava como um caracol contra uma avalanche. Um arquivo de vídeo abriu-se: Viana, em uma sala privada, assinando a autorização de dosagem do Protocolo Lázaro-Beta com o selo da Almeida Equity. A prova estava ali, mas o sistema começou a travar. A purga automática havia começado. O servidor principal sobrescrevia os dados. Elias puxou o drive no momento em que a tela ficou preta, o som de portas sendo arrombadas vindo do corredor externo.
Ele saltou pela janela lateral, caindo no lodo do pátio. O segurança surgiu na esquina. Elias correu, ignorando o frio, e saltou a cerca perimetral. Ao aterrissar, ouviu o som metálico de algo caindo na poça profunda à sua frente. Era o seu último vestígio de conexão, o dispositivo que ele nem sabia que ainda carregava no bolso, deslizando para o bueiro.
Encharcado e isolado, Elias caminhou pelas ruas desertas. O silêncio da cidade era mais aterrorizante que o alarme do hospital. Ao chegar em frente ao seu prédio, ele parou, o corpo tremendo de exaustão. Sob a luz amarela de um poste, um sedã preto estava estacionado exatamente sob sua janela. A vigilância não era mais interna; o hospital havia trazido a guerra para a sua porta.