Precisão sob Pressão
O salão do Laurel & Rocha, antes um templo de elegância, transformou-se em um teatro de pânico. O Sr. Viana, o investidor cujo capital mantinha a fachada dos Albuquerque, jazia sobre o piso de mármore, o rosto tingido por um cianótico alarmante. O Dr. Arantes, médico da família, tateava o pescoço do homem com mãos trêmulas, incapaz de diagnosticar a obstrução mecânica que sufocava o investidor.
— Saiam da frente — a voz de Arthur cortou o ruído de talheres e exclamações. Ele não pediu licença. Quando o chefe da segurança tentou interceptá-lo, Arthur usou o próprio impulso do homem para girá-lo, imobilizando-o com uma chave de braço que exigia conhecimento anatômico, não força bruta.
— Você enlouqueceu? É um garçom, não um médico! — Arantes tentou empurrá-lo, mas Arthur desviou com a fluidez de quem já havia operado sob fogo cruzado. Ele agarrou o pulso de Arantes, pressionando um ponto nervoso que fez o médico soltar um ganido agudo e recuar, o braço dormente.
— Se me interromper, ele morre em sessenta segundos — Arthur declarou, a voz fria e desprovida de qualquer hesitação. O Patriarca, com o rosto congestionado pela hipertensão, deu um passo à frente, a voz trêmula de fúria: — Arthur, saia daqui agora! Você está arruinando o nome desta casa!
Arthur ignorou o Patriarca. Seus dedos, firmes e precisos, localizaram a obstrução na traqueia de Viana. Com um movimento seco, ele pegou um garfo de prata, esterilizado rapidamente na chama de uma vela próxima. A ponta metálica, fria e precisa, serviu como um bisturi improvisado. Ele realizou a manobra com uma destreza que silenciou o salão. O ar entrou nos pulmões de Viana com um chiado sibilante. O investidor sacudiu, o peito subindo em um espasmo violento antes de estabilizar.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Arthur não se levantou. Ele observou o monitor improvisado que montara com os equipamentos de emergência que Arantes negligenciara. — A hipóxia foi contida, mas a arritmia ventricular persiste. Se o senhor, doutor, insistir em administrar adrenalina, o miocárdio dele cederá. O senhor não está tratando um paciente; está assinando um atestado de óbito.
O Patriarca sentiu o chão fugir debaixo de seus pés. Helena, observando de uma mesa lateral, notou como o status daquela sala havia se invertido em segundos. O garçom, antes invisível, era agora a única autoridade no recinto.
O Sr. Viana abriu os olhos, a respiração ainda irregular. O Patriarca apressou-se em se colocar entre o investidor e Arthur, forçando um sorriso amarelo. — Viana, meu caro, que susto. Nossa equipe médica já estava no controle. Esse rapaz é apenas um parente distante que se excedeu.
Viana ergueu uma mão trêmula, silenciando o Patriarca sem sequer olhá-lo. O investidor manteve o olhar fixo em Arthur. — Garçom? — a voz de Viana era um sussurro rouco. — Se este homem é um garçom, então o seu médico oficial é um açougueiro. Quem é você, rapaz?
Arthur manteve a postura, o rosto desprovido de emoção. — Arthur Albuquerque. Apenas alguém que conhece a diferença entre curar e fingir.
— Você me salvou — Viana declarou, a voz ganhando força. — O que quer em troca? Um favor meu está garantido.
Mais tarde, no escritório privado, o Patriarca tentou retomar o controle, a voz destilando veneno. — Você acha que um truque de sorte te torna um dos nossos? Vou garantir que você nunca mais pise em um hospital nesta cidade.
Arthur não recuou. Ele retirou o envelope pardo que recebera mais cedo e o deslizou pela mesa de carvalho. — O Sr. Viana saberá quem salvou o capital da sua família. E ele saberá, se eu decidir contar, por que a sua saúde está em declínio tão rápido quanto o seu império. O senhor está sendo envenenado, e eu tenho os exames que provam isso.