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Chapter 9: A Contagem Regressiva Final

Beatriz consegue libertar Sofia do subsolo da mansão após um curto-circuito no sistema biométrico. Durante a fuga pela chuva, Sofia revela a existência de uma cópia digital das provas. Após uma perseguição frenética na Marginal Pinheiros, Beatriz abandona o veículo rastreado e chega ao tribunal, onde flagra Ricardo Viana subornando o juiz. A contagem regressiva para a audiência final é de apenas duas horas.

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A Contagem Regressiva Final

A fumaça preta e gordurosa do incêndio que Beatriz iniciara na ala de produtos químicos subia pelas frestas do subsolo, transformando o ar em uma lâmina de asfixia. A luz vermelha do painel biométrico da cela de Sofia pulsava com uma indiferença cruel. A chave mestra, que custara tanto sacrifício, jazia inútil no chão de concreto. O sistema não pedia uma chave; pedia a íris ou a impressão digital de Ricardo Viana.

— Bia, você precisa ir — a voz de Sofia era um sussurro rouco, quase inaudível sob o crepitar das chamas. — Se ele chegar, você não sai daqui viva.

Beatriz ignorou a súplica. Seus dedos tatearam a parede atrás do painel. A mansão era um labirinto de privilégios onde até a segurança tinha uma hierarquia. Se Ricardo era o topo, quem era o pilar? Eliana, a governanta, detinha privilégios de acesso secundários, uma redundância que a arrogância dos Viana esquecera de limpar. Beatriz forçou a carcaça do painel com a chave mestra, usando-a como alavanca até ouvir o estalo metálico de um curto-circuito. Faíscas azuis iluminaram o corredor quando o sistema entrou em protocolo de emergência, destravando a porta magnética com um suspiro pneumático.

Elas emergiram nos jardins sob um dilúvio que não lavava o sangue, apenas transformava a fuligem das avenidas em uma lama negra. A visibilidade era nula, e as sirenes da polícia, que Beatriz sabia estarem a caminho devido à denúncia anônima de Ricardo, cortavam a tempestade. Sofia, trêmula, agarrou o braço de Beatriz.

— O livro-razão não é o único rastro — Sofia tossiu, limpando o rosto sujo. — Ricardo não sabe que fiz uma cópia digital. Está em um servidor criptografado, vinculado a um e-mail que ele nunca acessaria. Se eles me pegarem, a chave de acesso morre comigo.

Elas roubaram um veículo de serviço nos fundos da propriedade. Beatriz pisou fundo, mas o GPS do painel piscava um alerta: o celular dela, esquecido no bolso do casaco, era um farol para os rastreadores de Ricardo.

A Marginal Pinheiros era um cemitério de metal parado. A chuva transformava o asfalto em um espelho traiçoeiro. Beatriz esmurrou o volante, a buzina soando como um grito abafado sob o temporal. Faltavam apenas duas horas para a audiência que selaria o destino de Sofia. De repente, um SUV preto emergiu da faixa de serviço, colidindo contra a lateral do carro. O impacto jogou-as contra a mureta.

— Eles nos encontraram! — Sofia gritou.

Beatriz não hesitou. O custo da hesitação seria a morte. Ela girou o volante, forçando uma saída perigosa para o acostamento, e colidiu o carro contra um pilar de sustentação de um túnel de serviço. O impacto foi seco, violento. O motor morreu. Beatriz arrastou Sofia para fora, abandonando o veículo e o celular, perdendo o rastro digital, mas ganhando a escuridão dos túneis subterrâneos que levavam, por sorte, às proximidades do Tribunal de Justiça.

Beatriz entrou no saguão do tribunal como se atravessasse uma linha de frente. Seus sapatos, encharcados e cobertos de lama, deixavam um rastro escuro sobre o mármore polido. O peso do livro-razão contra o peito pulsava no mesmo ritmo de seu coração. O saguão era um templo de silêncio burocrático, interrompido apenas pelo tique-taque monumental do relógio de pêndulo na parede principal. O som era uma contagem regressiva física, golpeando o ar com uma precisão que a fazia querer gritar.

Ela estava ferida, com o ombro latejando, mas a dor era um detalhe menor diante da visão que a paralisou: Ricardo Viana estava ali. Ele conversava com o juiz da causa, o homem que deveria ser o fiador da justiça. Ricardo sorria, um gesto frio e ensaiado, ajustando as abotoaduras de ouro. O juiz assentiu, guardando algo no bolso interno do paletó — um envelope que selava o destino de Sofia antes mesmo que Beatriz pudesse chegar à sala de audiências.

O relógio do saguão do tribunal começou a bater: restavam apenas duas horas para a audiência final.

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