O Confronto no Fórum
O mármore do Tribunal de Justiça de São Paulo, frio e impessoal, parecia sugar o calor dos meus pés encharcados. O ar, pesado pelo cheiro de café de máquina e pelo suor de advogados caros, era uma asfixia constante. Ao meu lado, Sofia era um espectro de seda rasgada e exaustão, o peso de sua vida agora repousando inteiramente sobre meus ombros. Tínhamos exatamente uma hora e quarenta minutos antes que a declaração de desaparecimento tornasse Ricardo Viana o senhor absoluto do império Lemos.
— Fique na sombra da coluna — ordenei, minha voz rouca, mas firme. Meus olhos rastrearam o saguão. Não eram seguranças de tribunal. Eram os cães de Ricardo: ternos italianos, olhares de predador e coldres ocultos que não deixavam margem para erro. Eles bloqueavam os elevadores privativos como se fossem os portões do inferno. O livro-razão, escondido contra meu peito sob o casaco, parecia uma brasa viva. Cada passo era uma aposta; cada segundo, um pedaço da minha vida que eu entregava em troca de uma chance de justiça.
Um homem de rosto quadrado, o mesmo que vi no funeral do meu pai, começou a se mover na nossa direção. O sistema de segurança estava em alerta máximo. Se fôssemos barradas agora, a verdade morreria ali, entre o mármore e a indiferença. Puxei Sofia para uma entrada de serviço. O funcionário, um homem de meia-idade com olhos cansados, bloqueou a passagem. Sacrifiquei o que restava da minha dignidade: joguei minha carteira de motorista e o pouco dinheiro que restava sobre o balcão, um suborno desesperado. Ele hesitou, olhou para os seguranças de Ricardo e, num movimento trêmulo, destrancou a porta lateral. Estávamos dentro.
O corredor que levava à sala de audiências era um túnel de silêncio absoluto. Quando empurrei as portas duplas, o estrondo do metal ecoou como um disparo. Ricardo Viana estava sentado na mesa da defesa, impecável, o relógio de pulso refletindo a luz artificial. Ao me ver, ele não se assustou; apenas sorriu, um movimento cirúrgico que confirmou meu pior medo: ele já sabia.
— Meritíssimo — a voz de Ricardo cortou o silêncio, calma e autoritária. — A intrusa que a segurança tentou conter acaba de violar o recinto. Ela não possui legitimidade para este processo.
O juiz Valente, um homem de pele encarquilhada, ajeitou os óculos. Seus olhos não encontraram os meus; estavam fixos no envelope pardo que o advogado de Ricardo deslizava sobre a bancada. Senti o estômago revirar. Saquei o livro-razão, a capa de couro gasta pulsando sob meus dedos.
— Este livro contém as provas! — gritei, a voz falhando. — Assinaturas, datas, contas offshore. Tudo o que Ricardo tentou enterrar nas paredes da mansão!
Ricardo levantou-se lentamente. Ele não negou. Ele apenas estendeu a mão para o juiz, que abriu o envelope pardo. O documento era um laudo pericial, timbrado e selado, datado daquela mesma manhã.
— Sra. Lemos — o juiz começou, a voz monótona. — Este tribunal já possui um laudo de autenticidade sobre os registros da família Viana. O documento que a senhora porta é, comprovadamente, uma falsificação grosseira. Os peritos atestaram que as assinaturas foram digitalizadas. A senhora está presa por fraude processual.
O mundo parou. O livro-razão, minha única arma, fora transformado em prova contra mim. Ricardo me encarou, seus olhos brilhando com uma vitória absoluta. Eu estava encurralada, sem álibi, prestes a ser algemada enquanto a farsa selava o destino de Sofia.
Foi então que o silêncio da sala foi quebrado por um som agudo. O celular do juiz, em cima da mesa, vibrou. Depois, o do advogado de Ricardo. Depois, o de todos na galeria. Um a um, os aparelhos começaram a emitir o mesmo sinal de notificação. A expressão de Ricardo congelou. Ele olhou para o próprio celular, e a cor drenou de seu rosto. Sofia, escondida nas sombras, havia ativado o gatilho. A cópia digital das provas estava sendo enviada, em tempo real, para cada terminal de imprensa e de controle judicial da cidade.