Ameaça Explicita
A chuva de São Paulo não lavava nada; ela apenas misturava a fuligem da metrópole com o sangue invisível da linhagem Viana. Escondida no banheiro de um posto de gasolina na periferia da Zona Sul, Beatriz Lemos forçava a respiração a um ritmo que não atraísse atenção. Seus sapatos, ainda manchados pela lama do jardim da mansão, pareciam emitir um brilho incriminador sob a luz fluorescente trêmula. Ela sacou o celular, as pontas dos dedos dormentes. A notificação, um aviso de segurança do sistema jurídico, era um soco no estômago: 'Herdeira Beatriz Lemos é a principal suspeita no desaparecimento de Sofia Viana'. O âncora do noticiário local, em um loop incessante na TV do posto, descrevia-a como uma oportunista instável que, em um surto de ganância, teria sequestrado a prima para forçar a sucessão.
Ricardo não estava apenas escondendo Sofia; ele estava reescrevendo a história. Ao torná-la uma fugitiva, ele não só a isolava de qualquer auxílio legal, mas garantia que a polícia a encontrasse antes que ela pudesse chegar ao subsolo da mansão. Bia descartou o celular na lixeira metálica; o aparelho era agora um rastreador para seus próprios algozes. Ela não tinha mais o luxo da discrição. O relógio contava menos de vinte horas para a audiência final. O 'descarte' de Sofia aconteceria ao amanhecer, e ela era a única peça que faltava para Ricardo selar o caixão da prima.
Mais tarde, em um quarto de hotel barato em Santa Cecília que cheirava a mofo e cigarro, Bia abriu o livro-razão. A planta técnica da mansão estava estendida sobre a colcha manchada. Cada linha representava uma artéria do poder dos Viana, e o ponto marcado em vermelho no subsolo da ala leste era onde Sofia definhava. Ao folhear as anotações feitas à margem do livro, uma lista de nomes saltou aos olhos: delegados, juízes, chefes de cartório. Todos na folha de pagamento da família. Sofia, em uma caligrafia apressada, havia deixado um aviso: 'Eles não apenas compram o silêncio, eles fabricam o crime'. Se Beatriz fosse capturada, a verdade morreria com elas.
Sob a chuva torrencial, Bia retornou ao perímetro da mansão. O frio penetrava suas roupas, mas a dormência era um luxo que ela não podia se dar. Escondida atrás de um muro de alvenaria úmida, ela observou a entrada de serviço. Três homens em trajes pretos descarregavam caixas metálicas de uma van com vidros fumê. Ricardo Viana estava lá, parado sob um guarda-chuva de cabo de prata, supervisionando cada movimento com a precisão de quem organiza um funeral. Ele estava garantindo o 'descarte' antes que a luz do sol revelasse a farsa. Bia sentiu o peso da chave mestra no bolso. O metal parecia queimar contra sua coxa. Ela percebeu que a mansão era uma fortaleza, mas Ricardo, em sua arrogância, havia negligenciado a ala de armazenamento de produtos químicos. Era ali que ela iniciaria o incêndio para forçar a evacuação.
O subsolo cheirava a mofo e a uma eletricidade estática que fazia os pelos dos braços de Bia se eriçarem. Ela correu pelo corredor estreito enquanto as chamas, alimentadas pelo material inflamável do anexo, começavam a lamber as vigas do andar superior. Ao encontrar a porta de aço reforçado, ela inseriu a chave mestra. O mecanismo girou com um estalo metálico, mas, em vez de abrir, um alarme agudo e estridente rasgou o silêncio. Luzes vermelhas banharam o corredor em um tom de sangue coagulado. O sistema de segurança não era apenas uma tranca; era um sensor conectado diretamente ao escritório de Ricardo.
— Sofia? Você está aí? — ela gritou, batendo o ombro contra o metal. Um som abafado, um pedido de socorro, ecoou do outro lado. Bia tentou forçar a fechadura, mas o painel digital agora exibia uma contagem regressiva em caracteres alaranjados: 02:00:00. O sistema exigia uma confirmação biométrica que ela não possuía. O alarme de incêndio começou a aspergir um spray químico sufocante, forçando-a a cobrir o rosto. Passos pesados ecoaram na escadaria de acesso. Ricardo estava vindo, e Bia percebeu, com um horror paralisante, que o relógio do saguão do tribunal — visível em uma tela de monitoramento que ela hackeara — começava a bater. Restavam apenas duas horas para a audiência final. Ela precisava extrair Sofia ou ambas seriam apagadas da linhagem Viana antes que o sol tocasse o horizonte.