A Mansão como Prisão
A chuva de São Paulo não lavava a sujeira da Mansão Viana; ela a tornava mais pesada, infiltrando-se no concreto como um veneno. Beatriz Lemos deslizou pelo acesso lateral de serviço, o coração martelando contra as costelas. Seus sapatos, outrora elegantes, estavam arruinados pela lama, um lembrete físico de que ela não era mais uma herdeira com direitos, mas uma fugitiva com um mandado de busca expedido pelo juiz Alberto Viana. Faltavam menos de vinte e quatro horas para a audiência de sucessão, o prazo final onde o nome de Sofia seria apagado da história e a fortuna drenada para paraísos fiscais.
O som de saltos altos e vozes abafadas vinha do saguão principal. A gala de caridade, fachada para a elite paulistana brindar enquanto o império desmoronava, era sua única cobertura. Ela conhecia a rotina daquela casa melhor que qualquer um: a troca de turnos às 22h e o ponto cego da câmera no corredor de serviço. Ao se esgueirar pelas sombras da ala privada, o ar tornou-se rarefeito, saturado com o perfume caro e o pânico de ser descoberta. Seus dedos roçaram a madeira fria da parede do escritório de Ricardo. O livro-razão estava em seu bolso, um peso que parecia queimar sua pele, mas a prova que faltava — o registro de nascimento original de Sofia — ainda era um fantasma.
O estalo seco da fechadura eletrônica ecoou como um disparo. Beatriz entrou no escritório, o relógio marcando 03:12. Ela tinha quatro minutos antes da próxima ronda. Seus dedos, trêmulos, deslizaram pelas bordas do painel de carvalho, seguindo o desenho milimétrico que Sofia deixara anotado no verso de um recibo. Ela pressionou uma protuberância discreta na madeira. O painel cedeu com um rangido metálico, revelando um nicho escuro. Beatriz tateou o espaço e puxou um envelope lacrado. Ao abri-lo, o sangue fugiu de seu rosto. Não eram apenas registros financeiros; era uma planta técnica do subsolo. Onde deveria haver um depósito, constava uma cela de contenção. Sofia não estava desaparecida; ela estava ali embaixo, e o tempo para salvá-la acabara de expirar.
O som de passos pesados ecoou no corredor. Beatriz congelou, enfiando o documento no bolso interno da jaqueta. Antes que pudesse recuar para o fundo da galeria oculta, uma mão firme cobriu sua boca, puxando-a para a escuridão. Era Eliana, a governanta que servira à família por décadas. Seus olhos carregavam uma determinação sombria. Ela não a denunciou; em vez disso, pressionou um envelope úmido contra a mão de Beatriz.
— Ela não está em um paraíso fiscal, Beatriz — sussurrou Eliana, a voz trêmula. — Está no subsolo da ala leste. Estão drenando tudo. Leve isso e vá. Se me pegarem, dirão que eu a ajudei por desespero.
Eliana entregou uma foto que provava o cárcere de Sofia, mas o som de botas militares aproximou-se. A governanta empurrou Beatriz para o vão entre as paredes e fechou o painel por fora, sacrificando-se para despistar os seguranças. Beatriz, impotente no vazio claustrofóbico, ouviu os gritos de Eliana sendo arrastada. O sacrifício da governanta era o preço daquela pista, e o silêncio que se seguiu foi absoluto.
Sozinha no vão das paredes, Beatriz ouviu a voz de Ricardo ao telefone com o juiz Alberto.
— O descarte precisa ser limpo — dizia Ricardo, a frieza corporativa gelando o ambiente. — A audiência é amanhã. Se Sofia ainda estiver respirando quando o sol nascer, o patrimônio será drenado. O descarte acontece nas próximas horas, sem rastros.
Beatriz apertou o livro-razão contra o peito. A contagem regressiva não era mais sobre herança; era sobre sobrevivência. O 'descarte' estava em curso, e ela estava presa dentro da própria jaula da família.