O Elo Perdido
A chuva em São Paulo não era um fenômeno meteorológico; era um mecanismo de exclusão. Beatriz Lemos sentia o peso da cidade sobre o teto do carro enquanto manobrava para sair do subsolo do Fórum. Faltavam exatamente vinte e quatro horas para a audiência que selaria o destino da herança Viana. No banco do passageiro, o gravador digital parecia pulsar, um peso morto que valia mais que sua vida.
Ao alcançar a rampa de saída, um sedan preto bloqueou sua trajetória. O reflexo foi instintivo: Beatriz travou as portas. Dois homens desceram, movendo-se com a frieza de quem não precisava de pressa. O crachá de segurança privada no peito de um deles não era um distintivo; era um aviso de que o sistema já havia sido comprado. Quando o primeiro golpe do cabo da pistola estilhaçou o vidro lateral, o som não foi de vidro quebrando, mas de uma sentença sendo lida.
Beatriz não lutou. Ela reagiu. Engatou a ré, subiu na calçada e, sob o impacto da colisão com uma lixeira de concreto, abriu uma brecha. Abandonou o carro na saída de emergência, sacrificando o veículo e, com ele, a prova digital que carregava. A perda foi imediata: o custo daquela informação era sua mobilidade.
Horas depois, em um terminal público na Barra Funda, Beatriz tentava acessar o sistema de processos. Seus dedos, ainda trêmulos pelo choque, digitavam o número do caso. A tela girou, lenta e cruel. O golpe final não veio de um capanga, mas de uma notificação oficial: uma ordem de busca e apreensão domiciliar contra ela. O motivo: 'subtração de ativos de espólio'. A assinatura digital no rodapé era do Desembargador Alberto Viana. O primo de Ricardo. O mesmo homem que presidiria a audiência de amanhã.
A armadilha estava completa. Beatriz não era mais uma herdeira; era uma fugitiva institucional. Qualquer tentativa de recorrer à lei resultaria em sua prisão imediata. Sem opções, ela retornou à mansão Viana, o único lugar onde a vigilância de Ricardo era, paradoxalmente, a sua única proteção contra a polícia que ele controlava.
Deslizando pelo corredor de serviço, Beatriz alcançou o painel falso atrás do qual o livro-razão estivera enterrado. O espaço era claustrofóbico, impregnado pelo cheiro de madeira velha e segredos podres. Ela se acomodou no vão, prendendo a respiração enquanto passos firmes ecoavam no escritório adjacente.
— O juiz já assinou o mandado contra a Beatriz — a voz de Ricardo era gélida, cortando o silêncio. — O sistema vai tratá-la como uma invasora.
Beatriz sentiu o ar faltar.
— E quanto a Sofia? — perguntou o capanga.
Ricardo suspirou, uma demonstração de tédio que aterrorizou Beatriz mais do que qualquer ameaça.
— O descarte precisa ser limpo. Se ela não ceder até o amanhecer, a audiência de sucessão será o último ato da linhagem dela.
Beatriz fechou os olhos. O prazo de vinte e quatro horas não era apenas para a herança. Era o tempo de vida que restava a Sofia.